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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

4 de Setembro – A cor da diferença ou a diferença da cor

Nunca fui racista, nem xénofoba. Aliás, não soube o significado dessas palavras até atingir uma certa idade, creio que em determinadas notícias de jornal ou telejornal.

Entrei para a escola aos 5 anos e a minha primeira amiga foi a Maria. A Maria era a Maria, apenas ela. Negra, de cor, preta, eram palavras às quais nunca atribuí qualquer sentido. Um dia alguém chamou a Maria de preta e eu pensei que lhe estavam a chamar isso porque o tom de pele dela era diferente, como quem atribui qualquer outra alcunha, a minha era a gorda, será fácil perceber porquê. A Maria passou a ser a preta, eu a gorda, e continuámos a brincar como sempre. Na minha escola havia várias crianças com a cor da Maria, e havia várias crianças gordas. Eu não sofri nem a Maria sofreu. É um facto que durante muito tempo quis ser magra como a Maria, mas nunca me perguntei se a Maria queria ser da minha cor. Porquê? Porque para mim a cor da Maria ou a minha cor não nos fazia melhores ou piores, simplesmente diferentes.

Um dia, na nossa primeira comunhão, percebi que a família da Maria era diferente da minha. Eram mais lá em casa, tinham outros hábitos e costumes e a minha mãe explicou-me que os pais da Maria eram de outro país, onde a cultura era diferente e eu senti uma certa alegria por conhecer uma pessoa realmente diferente.

Desde cedo que a Maria me fez perceber que existiam pessoas diferentes muito perto de nós, mas no fundo iguais.

Mais tarde a minha mãe mudou de emprego e os patrões eram indianos, de cultura hindu. Eles tinham hábitos muito mais diferentes do que até então conhecia. Com eles fiquei a saber que mesmo dentro de um só país existem diferenças culturais muito distintas. Apesar de não sermos da mesma cultura, eles convidavam-nos várias vezes para as celebrações deles, e nós para as nossas. Houve momentos muito divertidos, muitas interrogações de parte a parte. Não vieram a ser as pessoas mais correctas do mundo e a minha mãe sofreu com a situação, mas foram eles os responsáveis pelos seus actos, não a cor e a cultura que receberam dos pais, dos avós, dos antepassados.

Depois disso tive um namorado muçulmano, partilhei casa com uma taiwanesa, com um muçulmano, com mexicanas e mexicanos, com franceses e espanhóis. Tivemos imensas discussões sobre o que nos separava e nos aproximava, mas nunca sobre o que estava certo ou errado. O importante era perceber o porquê de determinados hábitos, valores, atitudes e objectivos. A minha vida enriqueceu.

Por tudo isto me custa imenso e me repugna alguém ser julgado pela pele que tem, pela cultura que lhe foi transmitida, pelos actos dos seus familiares ou similares. Sou capaz de compreender tudo na vida, menos isso. Se algum avô do meu tetravô escravizou ou maltratou alguém em alguma parte do mundo, onde está a minha responsabilidade nessa situação? Se alguém da minha família ou da minha cultura tiver praticado algum crime, onde está a minha responsabilidade nessa situação? Se alguém me quiser julgar, que seja por não lamentar o que se passou. E isso não acontece, lamento e repudio toda e qualquer forma de domínio sobre um povo, sobre uma pessoa, ou qualquer acto de vandalismo, seja em que país for. Nesse caso, a única coisa que resta é julgaram-me pelos meus actos, porque até agir sou igual a qualquer outra pessoa do mundo.

Não sei se a cor faz alguma diferença, mas sei que o mundo ganha muito mais em diferença pela variedade de cores que nele existem.

3 comentários:

Lúcia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
L.A. disse...

Cara repórter:
Eu pretendo usar este texto, mas não queria expor aqui porquê nem onde, mas tem a ver com questões profissionais. Queria saber, portanto, se posso, e se o devo atribuir ao nick ou a um nome de autor. E, claro, se autoriza.
L.A.

repórteres de improviso disse...

Cara Lúcia,

Compreendemos que não queira aqui divulgar o que pretende.

Pedimos que nos contacte através do mail joaotdias@gmail.com.

Obrigado.

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