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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

28 de Agosto – “Pula” na sola do sapato

Em Luanda, entre muitas outras coisas, há algo que temos que ter sempre presente e que já foi por nós referido. Quando procuramos algum local e solicitamos informações, não esperemos chegar lá na primeira tentativa!

No entanto, esta busca pelo local desejado, pode por vezes ser mais proveitosa do que alguma vez imagináramos.

Quando eu, co-reporter, vim para Luanda, não tive tempo ou paciência para colocar os meus sapatos a arranjar. Seja por preguiça, seja simplesmente por querer aproveitar o tempo de forma muito mais útil, trouxe cerca de 4 pares de sapatos com capas gastas, perdão, gastíssimas.

Ora apresentava-se o primeiro desafio, encontrar um sapateiro em Luanda. Se repararem, esta não é propriamente uma actividade que esteja disponível a cada esquina. Em Lisboa, e apesar de ser um negocio já existente em todos os centros comerciais, vou ao sapateiro onde a minha mãe vai, que por sua vez lhe foi indicado por uma vizinha, a quem outra vizinha lhe tinha indicado, e assim sucessivamente...

Recorrendo a esse princípio, isto é, que é sempre preferível perguntar a alguém que aparente já tenha solicitado serviços a um sapateiro, coloquei a questão a uma colega de trabalho. Como seria de esperar ninguém responde é no número tal da avenida ou rua X, ao lado da loja Y... A indicação que me deu foi, “acho que há um na Avenida de Portugal, perto da Embaixada de Portugal, talvez em frente, mas chegando lá perguntas”.

Bom... assim fizemos numa tarde de Sábado, já antecipando algumas tentativas para encontrar tal sítio. Em frente à Embaixada de Portugal não havia nada parecido com um sapateiro, apenas uma farmácia. Entrei e perguntei se sabiam onde havia um sapateiro, que supostamente seria daquele lado da Avenida. Indicam-me que é mais abaixo, a seguir a algo que agora não recordo o que era. Fui descendo até perto do local indicado e vejo uma espécie de sapataria/lavandaria/loja de bugigangas e pergunto se o sapateiro era ali, já meio descrente. As raparigas respondem-me que não, que havia um por ali mas não era bem um sapateiro, mas que tinham a sensação de existir um bom mas não ali mesmo, até que me acompanham à porta e colocam a questão a uma amiga ou cliente que ia a passar. Esta senhora indicou-me um sítio completamente oposto, apontando para um local que eu não conseguia sequer visualizar, certamente devido à minha miopia... Mas lá fui, com o repórter já com um deficit de paciência :)

Ao chegarmos perto do local que me parecia ter sido indicado pela senhora deparamo-nos com algo diferente do sapateiro que arranja sapatos, mas sim com uma mini-fábrica de calçado artesanal. Pensei de imediato que não tinha explicado correctamente à senhora os meus propósitos e perguntei com algum receio “fazem concertos de sapatos?” O rapaz respondeu prontamente que sim, de todos os tipos, capas, solas, meias solas, o que se quisesse e pediu para mostrar o que era para arranjar.

Ok, neste momento os meus olhos luziram! Quanto mais o rapaz falava mais descansada eu ficava. Tínhamos acordado só deixar dois pares e passaríamos a deixar os outros dois mediante a forma como se viria a apresentar o conserto dos primeiros. Estávamos um pouco expectantes em relação ao preço mas os 1000 Akz (cerca de 8,5 euros) que nos pediu não pareceram extremamente caros em comparação com os preços que estávamos habituados...

A coisa processou-se de maneira engraçada. O rapaz, que parecia ser o responsável pelo local, deu-nos o contacto dele e fixou o nome do repórter. E diz, “João, tu ligas para mim para saberes se estão prontos e passas cá para vir buscá-los quando puderes!”. E pronto, criou-se ali uma empatia que viríamos a cultivar das vezes seguintes, e que me deixou a mim, có-reporter, com à vontade para lhe perguntar uma série de coisas sobre as sandálias em exposição.

À entrada do local estavam um conjunto de sandálias de couro em exposição, que eles fabricavam diariamente à medida que iam vendendo. Havia um conjunto de artesãos que trabalhavam ali, à frente de quem passasse, havendo trabalhos em várias fases.

Coloquei várias questões, se era possível fazer um tamanho específico de um modelo exposto, se tinham mais modelos, e ele responde com uma curiosidade, que era possível fazer qualquer sandália, desde que trouxéssemos ou indicássemos qual o modelo pretendido para se poder reproduzir naquele material. Os preços, sem serem necessariamente baratos, eram simpáticos, o que nos fez pensar em óptimas prendas de Natal! :)

Nas visitas seguintes fomos deixando e recolhendo alguns pares, que entretanto se tinham estragado com o uso em Angola, e acabámos por descobrir através do Moreno (o nome do dono do negócio), que nas traseiras trabalhava um costureiro e alfaiate, algo que também procurava porque tinha umas calças com necessidade urgente de bainha e um pano de tecido que adquiri no primeiro dia em Luanda e que pretendia transformar numa saia ou num vestido!

O próprio Moreno levou-nos ao senhor em causa e apresentou-nos. Era incrível a quantidade de modelos de roupa que o senhor fazia, bastava levar o tecido, do padrão pretendido, tirar as medidas e ele transformava no modelo escolhido!

Mas palpita-me que em breve teremos material para um novo post relacionado com pano de tecido e roupa tradicional! :)

Voltando ao Moreno e aos sapatos...

Depois de amadurecer uma determinada ideia para umas sandálias, eu, có-reporter, na minha primeira incursão sozinha por Luanda a conduzir, fui visitar o Moreno para levantar umas sandálias que tinha deixado a arranjar e encomendar um determinado modelo. Acertei com ele alguns detalhes, discutimos ideias, possibilidades, em que um dos artesãos também foi consultado, fiz um esboço em papel (mediante e limitado às minhas capacidades reduzidas de desenho) e pronto, chegámos ao modelo final. Regressei a casa com as minhas sandalecas e ansiosa por ver as que iriam ser feitas!!!

Eis que uns bons dias mais tarde e, já em Portugal (pois tive que regressar a Lisboa), ao arrumar as mesmas sandálias que tinham estado a arranjar reparo numa inscrição pequena na sola: Pula! Não pude deixar de me rir. Pula era a forma como quem arranjou as capas das sandálias nos identificou. Pula é o nome que em Angola se dá aos estrangeiros residentes. E o resultado foi este:


PS: Num post seguinte falaremos da origem das sandálias de couro, e da sua presença em Luanda, que está ligada à história recente de Angola, e não só... stay tuned!

3 comentários:

Paulo disse...

Fantástica história!


Cumprimentos aos dois!

Co-repórter disse...

Paulo, o Moreno foi das pessoas mais genuínas que conhecemos e ainda bem que as nossas vidas se cruzaram! De cada vez que o visitamos e ao resto dos colegas que trabalham com ele, vimos sempre com um sorriso rasgado e uma história para contar!
PS: Está para breve um novo post sobre o Moreno, os sapateiros e as sandálias... mas o repórter mata-me se antecipar mais alguma coisa ;)

repórter de improviso disse...

Bom...

Fugas de informação "no seio da equipa"????? :P :P :P


Mais a sério...

No caso do Moreno é verdade que em breve (tão breve quanto possível) sairão novas notícias... E neste caso os conteúdos multimédia são, esperamos, ainda mais diversificados. Certamente que vais gostar ainda mais Paulo.

Abraço

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