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sábado, 18 de agosto de 2012

29.Jul.2011 - Acontece quando menos esperamos

Feliz ou infelizmente, a vida não se preenche só com coisas boas. 

Felizmente porque as coisas más que nos acontecem nos colocam alerta e despertos para que não ocorram novamente, e também porque nos fazem aprender. Neste caso específico que vos contarei, felizmente também porque nos permite dar valor à nossa vida.

Infelizmente porque sofremos e se não tivermos o discernimento e força necessária, podemos ir abaixo e a recuperação ao dia-a-dia torna-se difícil.

Em Luanda, em Angola, nada é diferente. É certo que o blog raramente tem notícias más, apenas pequenos apontamentos de alguns desastres que ocorrem na nossa vida diária. Mas talvez isso tenha ocorrido até então porque somos sortudos, não porque tenhamos pretendido camuflar o que quer que seja. 

Sendo o objectivo desde blog reflectir a realidade das nossas vidas em Luanda e em Angola, não poderíamos obviar o acontecimento desta data. Não porque seja algo que acontece todos os dias, mas porque é algo que simplesmente acontece. Com mais frequência ainda se não tivermos os cuidados necessários.

No dia 29 de Julho de 2011, uma sexta-feira à noite, eu e o repórter seguimos programas diferentes. Ele iria a um jantar da empresa, por ocasião da despedida de um colega que regressaria a Portugal. Eu iria jantar com uma amiga à ilha. 

O repórter liga-me a determinado momento, deveriam ser umas 23h00, a dizer que estava cansado e já estava a chegar a casa. Como eu não tinha chave do portão, queria saber se eu ia demorar para informar ao guarda quanto tempo demoraria e para lhe dizer para permanecer acordado e atento até eu chegar.

Eu disse-lhe que pelo menos mais uma hora estaria e que não deveria chegar muito depois das 00h30. 

De volta à ilha e ao Chill Out, depois de muitas gargalhadas a propósito da minha soneira que não me deixava parar de bocejar, eram umas 23h45 e fomos a caminho de casa. Primeiro fiz um desvio pelo Vila Alice para deixar a minha amiga e segui depois em direcção a casa.

À hora que era não havia praticamente carros na cidade, como é natural, e por falta de experiência nem reparei se vinham carros e motas atrás de mim. Era praticamente a primeira vez que andava àquela hora sozinha em Luanda.

Ao chegar à porta de casa cometo o primeiro erro e outros sucessivos. A rua vazia, os guardas já todos recolhidos dentro das respectivas casas e eu saio depois de estacionar e começo a bater devagarinho no portão para não despertar o guarda subitamente. Não me recordo ao certo de quantos minutos ali estive a bater com os nós dos dedos, talvez 5, mas à data de hoje reconheço que aquele bater de dedos não acordaria ninguém.

De repente oiço alguém fazer um pssssttt e viro o olhar para a minha esquerda. Apesar da rua ser suficientemente iluminada, a existência de uma carrinha daquelas de caixa, parada ao meu lado, dificultava a visibilidade. Pensei que fosse um guarda das outras casas que me tivesse ouvido chegar e na minha ingenuidade disse boa noite.

Ele dá dois passos na minha direcção e eis que, ao mesmo tempo que vejo a arma automática apontada algures na direcção da minha cabeça oiço um "passa a mala" bastante nervoso. 

A partir daquele momento a memória é vaga e só depois de revive-lo umas quantas vezes é que consegui reconstituir o que aconteceu.

Toda a gente sem excepção nos diz para, em situações de assalto, entregarmos tudo e não oferecermos resistência. É verdade que é isso que deve acontecer, mas também não é menos verdade que ninguém está psicologicamente e naturalmente treinado para viver e ultrapassar assaltos. Não frequentei nenhum curso e nunca fui preparada para tal, tal como milhares de pessoas também não o foram, logo a reacção pode ser tão díspar como a diversidade humana.

A minha reacção foi ficar parada, sem me mexer um milímetro para a frente ou para trás, desatar a chorar e a implorar que ele não me fizesse nada. Ele continuava a dizer com bastante nervosismo "passa a mala, passa a mala".

Julgo que havia uma mota, a sua mota, ao relantim, e isso despertou a atenção do guarda da frente (segundo disse ao repórter depois e já no dia seguinte).

Tudo estava a acontecer a uma velocidade muito rápida para que me conseguisse lembrar de todos os detalhes, mas sei que foi esse barulho da mota que mudou tudo.

De repente oiço o som de uma AK a ser carregada, ligeiramente afastada de nós, e pensei que ia morrer. Pensei que ele fosse ficar nervoso e disparasse. Tal como disse, é a reacção que resulta do nosso ser. O que aconteceu foi completamente diferente, ele ficou sim nervoso, mas com medo de ser apanhado. Ainda fez uma última investida e deu mais um passo na minha direcção. No entanto, ao mesmo tempo que isto acontecesse, o barulho da AK despertou a maioria dos guardas próximos e começou-se a ouvir passos, alguns estores a abrir, armas a saírem do chão onde estavam pousadas ao lado de onde dormiam. 

Por estupidez ou instinto, ao sentir cobertura e "segurança" desatei a gritar a pulmões abertos. O nervosismo do assaltante aumentou e ao sentir-se um pouco encurralado, olhou para mim, hesitou por segundos se viria na minha direcção mas o barulho de um portão a abrir ditou a sua decisão, começando a correr na direcção da mota, parada detrás da carrinha e arrancou. 

O guarda que saiu do portão, que então se tinha aberto, ainda correu na direcção dele mas a mota já ia quase a dobrar o quarteirão.

Naquele momento o choro dominou-me e em menos de 20 segundos apareceram ao meu lado o meu guarda e o da casa em frente, que me tinha "salvo" do assalto. Estava completamente descontrolada dos nervos que se abateram sobre mim. Este guarda, apercebendo-se do meu estado agarra-me com uma das suas mãos enormes e grita-me para me acalmar "já passou, ouviu, já passou". Não sei como mas funcionou, olhei para ele, e para o seu metro e noventa, e abanei com a cabeça que sim, ainda que as lágrimas não me abandonassem. "Vá, suba. Nando, leva a senhora".

Quando cheguei ao pé do repórter, que já ia no seu segundo sono completamente distante do barulho que então se tinha gerado na rua, desatei novamente a chorar. Ele ao acordar completamente estremunhado só perguntava o que aconteceu, o que aconteceu. Balbuciei umas palavras e ele desceu a correr.

O guarda da frente explicou-lhe de forma resumida, contando tudo com mais detalhe no dia seguinte de manhã, quem era o assaltante, que já era conhecido nas redondezas por tentar assaltos e seguir senhoras até ao bairro, onde estão mais vulneráveis. Que conheciam a mota vermelha e que tinha sido o barulho da mota que o alertou, embora estivesse alguns segundos a tentar perceber, pois não me via, devido ao facto de eu estar atrás do carro, só depois reparou na minha cabeça. Referiu também que ao dirigir-se ao portão para vir cá fora, se tinha esquecido da chave na casa do CCTV, e então decidiu carregar a AK para o assustar, pois o tempo que demoraria a ir buscar a chave do portão e voltar para abrir a porta, lhe daria tempo para ele completar o assalto. Por último referiu que naquele ano já era o terceiro assalto ou tentativa na rua, pelo mesmo indivíduo e que andavam com vontade de lhe dar uma coça ou mesmo mais.

A noite foi difícil, só me lembrava da arma apontada na minha direcção. No dia a seguir pensei nos erros cometidos e no que nos pode acontecer se baixamos as defesas, simplesmente por nos sentirmos mais seguros em determinado sítio.

A listar:
Deveria ter reparado se alguém me seguia;
Sabendo que não tinha chave, e mesmo tendo, àquela hora nunca deveria ter saído do carro (mantendo-o ligado e em posição de arranque) sem que o guarda estivesse cá fora ou sem que houvesse outros  guardas na rua, por perto;
Apitar para o guarda sair ou ligar antes a avisar que estamos a chegar.

Não pensem que isto acontece todos os dias e neste caso facilitei imenso. O que é um facto é que a partir daí, por mais cuidado da minha parte e mais sorte também, nunca mais aconteceu. Já foram várias as vezes que cheguei sozinha e tarde a casa, e não mais aconteceu.

Este episódio faz-me lembrar uma frase que tantas vezes ouvi. Luanda não é uma cidade perigosa, basta que tenhas os cuidados necessários e a probabilidade de algo te acontecer reduz-se drasticamente.

Não concordo com parte desta afirmação. Luanda é sim uma cidade perigosa. Uma cidade em que não se pode caminhar normalmente na rua em todo o centro da cidade, com os nossos pertences, é uma cidade perigosa. Mas se nos habituarmos a viver com isso e tomarmos as devidas precauções em todas as horas do dia, incorporando-as no nosso quotidiano, então sim, a probabilidade de algo acontecer é reduzida.

1 comentário:

Carla Trindade disse...

Experiência incrível. Ainda bem que acabou bem. De facto ninguém sabe como irá reagir perante estas situações.
E não há só coisas más em Angola.
Como eu disse num texto do meu blog, 'fica a certeza de que onde há pessoas boas, há pessoas más!'
E é curioso que, como já estava consciente de tudo quando escreveu o texto, visto ser um relato do que ocorreu, expõe-nos claramente as coisas como quem se apercebe do perigo. No entanto, experimente fazer o exercício contrário, relatar tudo o mais possível como viveu. Aposto consigo que todos nós sairíamos do carro, sem buzinar, e bateríamos suavemente à porta, para não acordar ninguém... Teve a sorte do seu lado. Ainda bem.

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