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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

22 de Setembro – Parte II Comuna para visitar: Nkalambata

Sem saber sequer no mapa onde era a Comuna, e acompanhado por um encarregado que tinha chegado à 1 mês aquela província, fizemo-nos à estrada para chegar à Comuna de Nkalambata….

Sabíamos qual era a picada que deveríamos seguir e que ficava a cerca de 30 km da cidade.

A picada, que inicialmente era de terra batida sem grandes buracos, uns km’s adiante passou a ser um pouco “mais severa” e voltou novamente a ter um piso regular…

Já depois de termos passado alguns aglomerados que não sabíamos se seriam ou não o que pretendíamos (porque não tinham placa que os identificassem), e fazer contas para ver se já teríamos ou não ultrapassado os tais 30 km que nos tinham sido dados como referência, percebemos que tínhamos chegado ao objectivo. A confirmação foi dada pela placa:


Nesse momento, confesso, fiquei algo nervoso. Já com 1 ano e um mês de Angola continuo a sentir que não há uma fórmula mágica para abordar as pessoas de forma a que sejamos bem recebidos/interpretados. Bem sei, porque já o percebi das viagens que fiz e já muitos colegas o disseram/demonstraram que fora de Luanda as pessoas são diferentes mas…

Ali estava eu, e um colega, mas que chegaríamos e teríamos que fazer algumas perguntas… Ir procurar locais onde pudesse ser efectuada a captação de água, etc etc etc… E a grande questão era “de que forma é que vamos ser recebidos?”. Não sabia…

Mas… O que tem que ser tem muita força e…

Enquanto fazíamos a manobra para trás, porque tínhamos avançado após a placa a tentar procurar a Sede da Comuna, a Escola ou outra “instituição” a que nos pudéssemos dirigir, perguntámos a uma senhora se seria possível falar com o Administrador da Comuna. Ela, com desconfiança e rapidez, disse que o Administrador não estava mas que estava a Adjunta na casa seguinte e, com a mesma velocidade com que responder, prosseguiu o seu percurso. Avançámos, ainda dentro do carro em direcção à referida casa, e atrás de nós ficava a senhora a olhar para confirmar se iríamos parar na casa correcta.

Parámos.

Do outro lado da vedação 2 senhoras e 3 crianças que pararam a olhar para nós como que a perguntar “quem são estes e o que é que querem”. Vindo da casa surgiu um homem, com os seus cerca de 35 anos, que ficou igualmente a olhar para nós…

Saímos da viatura e perguntámos se a Adjunta do Administrador estava. De imediato o homem disse que sim e fez sinal para transpormos a vedação que separava o espaço da casa da estrada.

As senhoras e as crianças continuavam a olhar-nos como que ainda mais admirados pela nossa presença.

Do interior da casa surgiu então uma senhora, descalça, com cerca de 50 anos. Cordial apresentou-se como Maria, cumprimentou-nos e disse que o Administrador tinha ido à cidade e que, na sua ausência, era ela (adjunta) que o substituía. De seguida perguntou-nos ao que vínhamos.

Explicámos que vínhamos ao abrigo de um programa para a execução de obras de captação, tratamento e água e que necessitávamos de fazer uma visita para percebermos que tipo de intervenção seria necessária.

Nesse momento a D. Maria sorriu passou as mãos pela cabeça e disse que não estava a perceber o que queríamos.. Expliquei que necessitávamos de saber se tinham um poço, um furo, um riacho ou algo semelhante e se, caso tivessem, alguém nos poderia mostrar.

Energicamente abandonou-nos e dirigiu-se ao interior da casa e, já lá dentro, disse então que nos iriam mostrar o que fosse necessário vermos. Regressou então à “porta” (que na prática era um cortinado) e agora tinha a sua mala ao ombro e, enquanto falava, tentava então calçar os sapatos.

Novamente junto a nós dizia, visivelmente contente que “se vocês vêm para nos servir a água temos todo o prazer em ir mostrar-vos o que necessitam”.

Admirado pela “recepção” e também pelo facto da senhora estar a preparar-se para ir connosco disse que não seria necessário ela ir e que bastaria que alguém nos acompanhasse… Confesso que achei que era uma situação demasiado banal para que fosse a senhora a acompanhar-nos mas…

Errado… Mais uma vez estava a utilizar padrões desadequados à realidade…

A senhora explicou-me então que as mulheres da comuna percorrem km’s para conseguir trazer água até casas. Portanto, se nós ali estávamos, queria ser ela a tratar desse assunto…

E só nesse momento consegui perceber a real dimensão do que estava a fazer… Saí do escritório para “avaliar a possibilidade de fazer umas obras” e, naquele mesmo momento, estava a perceber que aquilo que para mim eram “apenas” umas obras, para aquelas pessoas representava uma melhoria muito significativa na qualidade de vida… Nesse momento percebi que, por esse mesmo motivo, era “ridículo” recear a reacção das pessoas à nossa chegada…

Lá fomos então, nós, a D. Maria e o tal homem com quem contactámos inicialmente…

O percurso, de aproximadamente 1 km, foi assim:



Depois de passar um pequeno ribeiro, de passar por diversas hortas, e de algumas conversas muito agradáveis e interessantes com os nossos anfitriões chegámos então ao local desejado… Um poço e uma casa das máquinas. 2 construções que teriam alguns anos mas que estavam em bom estado de conservação. No interior da casa das máquinas não havia máquinas mas o poço tinha água… Percebemos que não era fundo e que, na prática, eram apenas 2 anéis circulares que serviam como depósito da água que ali nascia…

Vista esta parte explicámos que seria necessário armazenar a água junto às habitações, que estavam de onde partimos e cujo desnível para o local onde estávamos era acentuado. Para isso pedimos que nos fossem mostrar um local onde isso pudesse ser contruído. E aí a surpresa… A D. Maria explicou-nos que “perto das casas havia um depósito que ficava também perto do quartel militar dos colonos”… Percebemos então toda a envolvente… Naquela zona havia um quartel militar. Para abastecimento a esse quartel os militares identificaram aquela nascente. Criaram condições para que a água fosse armazenada e depois bombeada até ao quartel… E por isso aquele “poço” e a casa das máquinas…

Pedimos então para ver esse tal depósito….

Pelo caminho, agora já com grande empatia com a D. Maria, houve ainda oportunidade para algumas perguntas…

Em primeiro lugar perante uma “armadilha” para a mosca do sono. Durante metade do percurso de Luanda a M’BanzaCongo existe uma grande quantidade de moscas do sono, também designadas como moscas Tsé-Tsé, e não é conveniente que façamos paragens. Durante essa parte do eprcurso tinha visto algumas destas armadilhas… Agora queria saber como funcionaria mas a D.Maria também não sabia muito bem como funcionavam…


E em segundo lugar quis tentar saber o que teria sido um edifício que ali estava, totalmente degradado. Fiquei então a saber que tinha sido uma igreja protestante. Aqui fica a fotografia.


Chegados ao depósito, cerca de 1 km depois e a mais 200 metros de altura concluímos que aquele era apenas um ponto intermédio entre a captação e o destino final daquela água… O quartel militar… Enquanto analisávamos o depósito a curosidade dos miúdos da escola era grande…


Enquanto íamos em direcção ao antigo quartel militar, tempo ainda para uma fotografia à escola


A entrada do dito quartel, que vulgarmente é designado de Porta de Armas, era uma pequena casa para vigilância que separava duas vias (uma de entrada e outra de saída).

Junto à casa de vigilância uma pedra com inscrições que parecia ser o registo das “companhias” que tinham passado por aquele quartel. Uma fotografia para registo…


E um pormenor das inscrições


Mais um pequeno percurso até ao às construções do quartel…


Durante este percurso a D. Maria mostrou algo que eu, sinceramente, não esperava… Por diversas vezes se referia “aos colonos” de uma forma amigável e, uma vez que já tinha percebido com que tipo de pessoa estava a interagir, disse-lhe sinceramente que receava um pouco a nossa recepção porque muitas das pessoas em Angola não reagiam bem quando confrontados com o passado e agora, ali, percebia que a atitude era diferente… Sorrindo explicou que muitas das pessoas não tinham a verdadeira noção do que os Portugueses tinham feito… Depois exemplificou no caso especifico de Nkalambata… Mesmo após todos estes anos estávamos a ver construções que tinham sido feitas 45 anos antes e que, se tivessem sido mantidas, estariam a proporcionar outras condições de vida aquelas pessoas…

E essa é a realidade…. Com esta visita a esta comuna tive a certeza que nós portugueses muito fizemos por esta terra… Não falo, porque desconheço, como é que as coisas se passavam no período antes da guerra colonial mas constato que muito foi feito para o bem deste país…

E isso, confesso, orgulha-me… Foi um prazer muito grande falar com a D. Maria e perceber que algumas das pessoas mais velhas valorizam a atitude dos “ex-colonos”.
Tivemos ainda tempo para saber que a D. Maria estava a tirar um curso na universidade e, respondendo à nossa pergunta sobre como se dizia o nome da terra, explicou que enquanto que para os Europeus se pronunciava o “M” de M’BanzaCongo, os Africanos diziam apenas BanzaCongo, situação que também se verificava com “Nkalambata” ou “kalambata”.

Chegados ao quartel o pátio e as construções que os militares partilhavam..


Logo ali outra inscrição…


Vendo que a estava ali no chão e que as crianças da escola brincavam sobre ela, sugerimos à D. Maria que guardassem aquela placa porque, sem dúvida, aquilo fazia parte da história daquela comuna. Compreendendo e dizendo que o passado era o que era, deu indicações aos 2 homens que nos acompanhavam agora, para que aquilo fosse guardado…

Em duas paredes dos quartéis as marcas daquilo que penso ter sido duas companhias que passaram por aquele quartel…



Antes do regresso à Comuna houve ainda direito a ums perspectiva geral de Nkalambata


Antes de regressar a M’BanzaCongo, tempo (e autorização) ainda para umas fotografias adicionais de Nkalambata…



E já à entrada de M’BanzaCongo uma perspectiva de um dos vales da cidade


E ainda uma visita aos 3 grupos geradores que alimentam toda a cidade de energia eléctrica…

4 comentários:

Artur disse...

Impressionante!!! Muitas surpresas, muitas informações... e queria saber mais sobre as armadilhas para as moscas tsé-tsé!!! Também funciona com as nossas moscas tuguesas? :-)

repórter de improviso disse...

É verdade... As viagens por Angola são sempre uma aventura e, se quisermos, uma forma de aprendizagem... Há sempre algo que s "pode beber"...

Quanto às armadilhas posso tentar fazer uma pesquisa para complementar a informação...

Mas não... Acho que não serviria para as moscas Tugas... ehehehehe

Abraço

repórter de improviso disse...

Aproveito para pedir desculpas pelo atraso na actualização do blog mas as últimas semanas têm sido "muito curtas" e ainda não consegui fazer o último post da viagem a MBanzaCongo...

Álguns dos outros post's já estão feitos mas ainda falta este próximo...

Paulo disse...

brutal....!

tens que comprar uma camara de video e fazer estes relatos em video....iriamos perceber melhor qual foi o sentimento que tives-te quando estives-te la e de que maneira essa terra mexeu contigo.

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