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domingo, 20 de fevereiro de 2011

7 de Novembro – Chá de Caxinde - Relembrar o presente com recurso ao passado – Luanda 18 anos depois

Este foi um daqueles Domingos sem expectativas nenhumas. Não tínhamos nada planeado e iríamos aproveitar o dia à medida que ele fosse decorrendo.

Eu, co-reporter, finalmente consegui dormir até às 10h00 da manhã! Acho sinceramente que foi um record que estabeleci em Luanda, que deixou o repórter feliz da vida :)

Depois de acordarmos, pôr-mos a conversa em dia com a famelga e comermos um belo de um pequeno almoço fora de horas, que é o mesmo que dizer, já perto da hora de almoço, saímos à rua à procura de algo para fazer!

Infelizmente começámos a pensar que a sorte não estava do nosso lado. Fizemos um périplo pelos espaços de exposições da Trienal, Globo, UNAP e Museu Nacional de História Natural e nada... tinha terminado o primeiro ciclo de exposições e estavam na fase de interrupção até ao segundo ciclo que inicia em meados de Novembro. Mas a visita ao Museu não foi totalmente perdida. Os mais atentos e fieis leitores deste blog já saberão de uma das minhas paixões no que respeita à cidade de Luanda, o prédio da Cuca!! Foi dos primeiros locais que vi quando cheguei à cidade e sempre andei a chatear o repórter para recolher fotografias do prédio e com o prédio! Ora nem mais... o Museu fica no extremo oposto do Largo do Kinaxixe (ou Kinaxixi, como prefirirem), e a oportunidade era a ideal, sem trânsito, sem movimento, com bastante luz natural e bem posicionados, tínhamos o cenário perfeito para os disparos fotográficos pretendidos!

Aqui ficam apenas dois dos registos recolhidos deste belo conjunto arquitectónico e cénico, na minha modesta opinião:




E uma brincadeira do repórter...


Regressamos a casa, tratámos de alguma lida doméstica, perdão, não deveria colocar o verbo tratar no plural, mas sim no singular...  e já com o estômago a pedir reforço fomos até ao Cais de 4 para um almoço tardio. Em Luanda há vários sítios bons para se comer e estar, mas talvez o Cais de 4 seja um dos que melhor conjuga estes dois verbos! A vista é magnífica, sem dúvida a melhor que se pode ter da Baía de Luanda, a comida, sem ter direito a uma estrela Michelin, é muito boa também, o que faz com que seja o local ideal para um almoço relaxado ou um jantar romântico. (Desculpem não utilizar o factor preço, mas sinceramente, em Luanda... não tem relevância... depois de algum tempo percebemos que só existe caro e muito caro, e depois de outro tanto tempo acabamos por perceber que, infelizmente, esse é mesmo o padrão...)

Ao final da tarde, e aproveitando o tempo livre que antecedia o clássico Porto-Benfica, fomos até ao Chá de Caxinde ver um filme, integrante do programa da trienal. O nome era sugestivo, O Miradouro da Lua, sem dúvida um dos principais monumentos paisagísticos dos arredores de Luanda, e representava a primeira co-produção lusoangolana, realizada no ano de 1992, marco histórico importante para este país.


Antes do filme iniciar fomos brevemente conduzidos pela história do mesmo, bem como por aquela que o antecedeu e acompanhou, através do próprio realizador, Jorge António, que se encontrava na sala.

Um pequeno aparte, o Chá de Caxinde é uma organização que assume extrema importância em Luanda do ponto de vista de divulgação cultural. Para além do cine-teatro onde se podem assistir a projecções de filmes e documentários, concertos, peças de teatro, existe também uma livraria e editora, um local para a prática de danças tradicionais e internacionais, um bar e um restaurante. É por exemplo neste local que se pode assistir aos concertos da Banda Maravilha, uma das mais conceituadas bandas de música popular angolana, todas as segundas-feiras! Mas em breve falaremos desta experiência em primeira pessoa.

Continuando...

O Jorge António falou da experiência de realizar um filme numa altura conturbada, como a do ano de 1992, em que decorreram as primeiras eleições livres em Angola, da escassez de recursos, do improviso na condução do filme, em que basicamente a gravação das cenas se ia desenrolando à medida das possibilidades existentes e das ideias que iam surgindo, mas chamou também a atenção para a Luanda de 1992. Segundo o realizador, aquele filme permitiria aos presentes não só recordar e reconhecer lugares da cidade, como perceber as diferenças que a separam dos dias de hoje. Algumas das pessoas que já visionaram o filme e conhecem a cidade actual, chegaram mesmo a perguntar-lhe “mas vocês tiraram os carros das ruas para filmarem as cenas de rua?” Todos os presentes sorriram perante tal afirmação, e o realizador reiterou “acreditem que não retirámos absolutamente nada, Luanda era mesmo assim, sossegada e praticamente sem carros”.

Por último apresentou-nos ainda uma das “actrizes” do filme que estava presente na sala, a Dª Custódia, para quem pediu uma salva de palmas. A Dª Custódia era uma senhora da casa dos 60, que aparentava ter alguma ligação prévia de amizade com o Jorge António, tendo a sua participação no filme sido improvisada, daí as aspas em torno da palavra “actrizes”.

De imediato ficámos com vontade de falar com ela e colocar-lhe uma série de perguntas... mas aguardaríamos pelo final do filme para saber se era possível...
O filme tem início em Lisboa, saltando à vista nomes aos quais estamos habituados, Vítor Norte, João Baião, João Cabral, Joaquim Paulo e José Meireles. Desde logo se percebe um pouco da história e a forma como se vai desenrolar. João Cabral é o actor principal, assumindo o mesmo nome, que vai partir em busca do pai que não vê desde criança, o qual vive em Luanda! A mãe, a veterana Isabel de Castro, embora um pouco incomodada com a viagem do filho, acaba por se resignar à ideia.
Na viagem de avião o João conhece a Sol, uma estudante angolana a regressar de férias, que viria a revelar-se uma ajuda preciosa em Angola. Aqui começam os pormenores que tornam o filme interessante com estes 18 anos de distância. O João, a par com outras pessoas, acende um cigarro dentro do avião. Pode parecer algo estranha a minha surpresa perante tal facto, mas nunca assisti a algo semelhante e nunca voei com tal permissão. Agora percebo a insistência dos avisos em todos os voos, afinal há ainda muita gente na actualidade que se recorda do tempo em se podia fumar num avião.

Mas o filme começa realmente a ganhar interesse a partir do momento em que o João aterra em Luanda no 4 de Fevereiro. O repórter ainda se lembra de uma parte antiga do aeroporto que se vê no filme, eu já não, mas há coisas que nos provocam risos de cumplicidade aos dois e a todos os presentes.

O João, perante a ausência do pai no aeroporto e a oferta de boleia da Sol e do irmão que a tinha ido buscar, diz: Não se preocupem, eu apanho um táxi! Não só a Sol e o irmão se desatam a rir, como todos nós também. Táxi em primeiro lugar é o nome dado aos Kandongueiros, as carrinhas Hiace que transportam as pessoas, em segundo lugar táxi, tal como se conhece habitualmente, é algo que não existia naquela época. E hoje... bom, existe uma empresa de táxis, mas os serviços são só por pedido antecipado e às vezes nem assim.

Depois existem uma série de lugares visitados no filme que nos fazem reviver a cidade. Por coincidência, a primeira rua em que o João vai à procura do pai é quase a nossa rua actual, o que nos faz trocar um comentário cúmplice e esboçar um sorriso. Já a rua onde a Sol mora tem um significado enorme para mim e para o repórter, a segunda morada onde o João vai à procura do pai é onde o repórter trabalha, aliás, a casa é ao lado do escritório do repórter... Há também uma série de locais marcantes, alguns que ainda existem e funcionam, outros não, entre outros o Hotel Panorama, actualmente abandonado, o cine Miramar, o bar /discoteca Pandemonium, o terraço do trópico, o Elinga Teatro.

O filme é marcado por uma série de encontros e desencontros na busca pelo pai, e é entre esses encontros e desencontros que ocorrem os passeios comuns como a visita ao Mussulo, em que os barcos parecem ser os mesmos dos dias de hoje, e às praias a seguir a Benfica, perto das Palmeirinhas.

E claro que o Jorge António tinha razão, Luanda era mesmo uma cidade diferente da dos dias de hoje, sem o trânsito frenético e caótico ao que estamos habituados, tudo parecia ser muito mais tranquilo.

Como acaba... não vamos contar, apenas vos podemos dizer que acaba aqui, com o João a gritar aos sete ventos que vai ficar...


Miradouro da Lua

No fim, e porque a curiosidade matava a respeito da rua onde o João vai à procura do pai na segunda morada que lhe deram, dirigimo-nos à Dª Custódia que nos confirmou. Era mesmo a rua onde o repórter trabalha! Contou-nos algumas peripécias sobre o filme e o nosso sexto sentido estava certo. A Dª Custódia era amiga do realizador, porque aparentemente um dos filhos e o Jorge estudavam juntos em Lisboa e, nas palavras da própria “O Jorge estava sempre a dizer: oh cota, um dia hás-de aparecer num filme meu, vais ver! E eu sempre a rir, até que um dia me apareceu na casa de Luanda com a malta toda e disse: oh cota, é hoje que vais aparecer! E assim foi, foram filmando e ficaram todos a dormir lá em casa” finalizando com uma gargalhada saudosista.

Há dias assim... em que temos muita sorte por poder viver momentos destes, relembrar o presente e visitar um passado recente!

E para quem quiser acompanhar a obra da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, aqui fica o link: http://www.chadecaxinde.net/

3 comentários:

Paulo Figueiredo disse...

Mais uma vez, parabéns pela escrita! Aproveito a oportunidade de responder aos apelos dos repórteres de improviso de sugestões para o blog. Gostaria, se tal for possível, de ver mais fotos do quotidiano, ou melhor, quotidianos da vida angolana, como por exemplo fotografias das ruas de Luanda e das pessoas no dia a dia (suspeito que possa ser um pouco perigoso andar com uma máquina fotográfica pelas ruas devido ao perigo de assaltos...). Tenho a sensação que os vossos registos irão ganhar valor no futuro, pois Angola está a ter um desenvolvimento muito grande, em ebulição e constante mudança e todos os registos que houverem no presente se tornarão valiosos, para que se possa ter uma janela do tempo que permita recordar no futuro estes tempos que estão decorrer. Um Abraço aos repórteres que de improviso já têm pouco... ;)

repórteres de improviso disse...

Viva Paulo.

Tão breve quanto possível irei publicar uma (grande) série de fotografias tiradas no dia 18 de Dezembro... A Co-repórter já estava em Portugal e eu estava a contar os minutos passarem para me ir juntar à família para mais um natal...

A cidade estava quase vazia mas consegue perceber-se o quotidiano...

Quanto a fotografias mesmo do dia-a-dia, tal como disseste, não é fácil... Até porque se vou a conduzir não vou conseguir captar algumas das coisas que queria...

Resumindo...

Em breve surgirão algumas coisas mas, provavelmente, não responderão na integra ao teu pedido...

Abraço do repórter de improviso. ;)

Co-reporter disse...

O repórter já registou a sugestão com agrado, a qual também agradeço. Efectivamente, mesmo aos fins de semana, sobretudo aos sábados de manhã, a cidade tem muita vida, e poderá dar para recolher registos. Vamos fazer os possíveis. Há também umas ideias para uns futuros posts sobre coisas do quotidiano. Prometemos ser breves na actualização!!! :)
Cumprimentos

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