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quarta-feira, 9 de maio de 2012

02.Abr.11 – Maria Rita no CineAtlântico


O nome desta senhora transporta-me para alguns e bons anos atrás, em que a nossa fidelidade matinal à Antena 1 nos fazia descobrir cantores assim, ainda ligeiramente desconhecidos das grandes massas.

Andava por aí no 2º ano da faculdade e lembro-me de pensar que aquele som me transportava para o Brasil, lembro-me de imaginar a infância desta senhora, certamente riquíssima do ponto de vista cultural e musical por ter nascido filha dessa musa inspiradora chamada Elis Regina, que cantava livre como ninguém.

Alguns anos depois continuei fiel e um dia numa visita à FNAC, com um dos meus primeiros salários, trouxe para casa o álbum homónimo, que fui riscando e riscando no carro até o meu irmão e o repórter dizerem que eu desperdiçava cds, que se estragavam, que os poderia gravar e manter os originais em casa. Não sei porquê mas nunca gostei de cds gravados, gosto de ter os originais. Mas não me apego de alma e coração a eles, mas sim tento usufruir deles enquanto e sempre que posso. Não colecciono cds, colecciono música. E sempre fui assim. Quando comprava um cd não o conseguia colocarna prateleira, ouvia, ouvia e ouvia, e só consigo ter esse prazer quando abro a caixa original. Cds guardados são relíquias, não têm vida. Talvez seja por isso que Iphones, Itunes, etc., nunca me tenham deixado extasiada.

Mas voltando ao tema...

Por essa altura que riscava o cd no carro passava  uma novela que tornou emblemática  e universal uma canção sua. Admito poder haver outras canções suas mais poéticas, e que a inserção no soundtrack da novela lhe tenha dado o impulso e o protagonismo que teve, mas a verdade é que para quem, como nós, está tão habituado a abraços, partidas e chegadas, esta canção diz-nos tudo.

Estava ainda longe de sonhar vir para Angola quando a Maria Rita foi actuar a Portugal e a minha Sylvie me convidou para ir ver o concerto com ela. 90% da plateia era composta por brasileiros, mas não me senti estrangeira. Houve muito samba e pé tirado do chão, mas nada superou o momento em que se começou a ouvir os primeiros acordes e em uníssono se cantou:
“Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica...”

Naquela altura senti que estava a viver um momento lindo, mas não interiorizei completamente a essência do mesmo, até que as partidas e as chegadas se tornaram parte integrante e constante da minha vida.

Não há dor como a da partida, aquele abraço que recebemos cheio de amor e de tristeza, a rogar para que fiquemos, deixando antever a saudade até ao próximo reencontro. Mas não há alegria maior do que a da chegada, aquele abraço apertado onde se afoga toda a saudade sentida e se agradece ao mundo por estarmos ali de novo.

E como não poderia deixar de ser a interpretação desta canção no Cine foi também o ponto alto da noite.

Para além do grande número de brasileiros que foram para estar mais perto de casa, havia outro tanto número de outros imigrantes. Não foi um concerto de massas, já que a casa mal estava cheia, mas foi muito nosso. Despido de grande ou nenhuma decoração, a Maria subiu ao palco com toda a sua simplicidade, mas capacidade de encher uma sala que já por ali viu passar artistas de renome.

E assim fomos para casa, a relembrar as saudades, mas com o coração e a alma cheia.



sábado, 5 de maio de 2012

01.Abr.11 – Laurent Filipe no Miami Beach


A vida cultural em Angola é tão subitamente intensa quanto escassa, e a semana à qual agora nos referimos está no primeiro dos pólos opostos acima mencionados.

É sempre com alguma excitação que recebemos a notícia da vinda de artistas internacionais a Luanda, e há medida que a semana ia passando, davamo-nos conta que os próximos dias iam ser muito cheios... 
chegámos a brincar com a situação e dizer “mas resolveram fazer um pack e trazê-los todos juntos?”

Quem cá vive percebe o que estamos a tentar transmitir, mas na verdade de Sexta a Domingo Luanda não ia parar (e Benguela também não), sendo que o cartaz cultural versava assim:
Sexta-feira: Laurent Filipe, Miami Beach Club
Sábado: Maria Rita no Cine-Atlântico
Sexta, Sábado e Domingo:  Carlos do Carmo na Casa 70. Já se antecipava a saudade do Fado misturado com o calor do Semba

Como a carteira tem fundo à vista, e o fundo em Luanda é bem visível, fizémos escolhas, Laurent Filipe e Maria Rita. Achámos insano pagar mais do que um salário mínimo local para ver o nosso querido Carlos, embora as imagens que vimos posteriormente quase nos tenham enchido os olhos de lágrimas.

E na Sexta lá cumpri o prometido, saindo a horas mais ou menos decentes, já que apesar de termos mesa reservada, a confiança do repórter não era a maior, tendo passado o dia a antecipar a não existência de qualquer reserva no meu nome. Mas o Wilson não falhou e os dois lugares estavam mesmo à nossa espera, na primeira linha, junto ao palco. 

Para os que não são familiares do Miami Beach, é um espaço de referência em Luanda, na ilha. Muitos dirão que já o foi mais, o certo é que as memórias dos reveillons ali passados já percorreram o mundo e não há lugar que mais tenha ajudado a promover o jazz como este.

Não sabemos se foi ao sabor de um gin tónico que ouvimos o Laurent e a sua banda, ou se foi a ouvi-lo que saboreámos o gin e a refeição de marisco, mas sabemos que a noite passou depressa e em ambiente de grande intimidade, o que sempre acontece quando estamos a disfrutar.

O Laurent partia no dia seguinte para Benguela, para actuar no festival de jazz, e nós partimos até casa, ainda embalados pelo som vibrante da sua música, enquanto nos transportamos até à próxima experiência de sons e sentidos.

Até amanhã, com encontro marcado no Cine-Atlântico.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

29 de Outubro – Porque nem tudo são rosas, neste caso, pérolas…

Depois de muita expectativa e de chatear o repórter para comprar os bilhetes, tinha chegado o grande dia, o dia do concerto da Pérola!! O meu regresso não podia ter ocorrido em melhor data, precisamente no dia que antecedia o espectáculo que há muito esperava para ver.

Passei a semana a falar do mesmo, a cantarolar as músicas que mais gosto, e a sexta-feira passou a correr na antecipação da noite que se avizinhava.

Fiz os possíveis para sair a horas do trabalho e chegar cedo à cidade, para ainda termos tempo de trocar de roupa e comer qualquer coisa. Entre outras coisas tontas, como guardar um registo fotográfico da alegria com o bilhete na mão :)

Ora bem, lá saímos em direcção ao Cine Atlântico onde o espectáculo teria lugar e, claro está, com pouco tempo de antecedência, a fila já era interminável e tivemos que recorrer à simpatia para conseguir um lugarzito em frente de uma garagem de forma a estacionarmos o carro.

Para ser sincera nunca pensei que a Pérola movesse tantas multidões. Todos os acessos ao Cine Atlântico estavam cheios de pessoas, pelo que a aproximação à porta de entrada se tornava difícil. Foi nesse momento que percebemos que as coisas estavam complicadas. Não só a fila para entrar era imensa que lhe perdiamos o fim, como havia imensa confusão motivada não só pelo facto de muita gente não ter bilhete e querer ainda comprá-lo, sendo que muitos tentavam a sorte procurando entrar sem bilhete, mas também pela aparente inexperiência de quem estava a controlar a entrada.

O repórter começou a ficar nervoso pela confusão instalada e chegou mesmo a sussurrar ao meu ouvido “daqui a pouco estas pessoas passam-se todas e não sei o que é que vai acontecer”. Embora também achasse que isso fosse possível, tal era o nível crescente de ansiedade por parte de quem aguardava, a excitação de ver a Pérola ao vivo fazia com que tolerasse a situação e tentasse retirar aquelas ideias da cabeça do repórter. Mas não... a minha excitação não chegou para acalmar aquelas pessoas todas e Infelizmente ele tinha razão... em menos de nada e sem sabermos bem como, começam os atropelos, os gritos, as pessoas a correrem, a tentarem fugir e a empurrarem e tivémos que ir na corrente enquanto tentávamos perceber o que se estava a passar... só foi possível quando ouvimos os latidos fortes de vários cães, uma rapariga a gritar que tinha medo, e vislumbrámos um dos polícias de intervenção a atiçar os cães contra as pessoas. Por sorte um casal agarrou-nos no braço e disse “venham para aqui”! O “para aqui” era um sítio mais resguardado, onde as pessoas que aguardavem na fila se conseguiam desviar daquela confusão.

Mas... nem tudo são rosas e num acesso de nitidez o repórter põe a mão ao bolso e apenas me transmitiu as palavras que mais me custaram ouvir e nas quais não queria acreditar “olha, já está, os bilhetes já eram”, seguido de uma série de impropérios, mas nada havia a fazer... para nós a Pérola já não ia cantar...

PS: Na segunda-feira seguinte a caminho do trabalho, quando já estava ligeiramente restabelecida do que tinha ocorrido, oiço um colega dizer “epá, parece que o concerto da Pérola foi com power”, e pronto... a segunda-feira que já é um péssimo dia, ficou ainda pior...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

28 de Agosto – We believe We can Fly - Força Angola

A vinda do R. Kelly a Angola estava rodeada de polémica, envolvendo duas produtoras de eventos, a Step, da Karina Barbosa, e a Casablanca, do Rikinho.

Polémicas à parte, os bilhetes já os tínhamos em casa, guardadinhos para o grande dia! Por diversas razões, comprámos os bilhetes para o espectáculo promovido pela Step em conjunto com a Unitel, o qual tinha por objectivo transmitir uma mensagem de apoio à selecção angolana de basquetebol que ia competir no Mundial da Turquia, daí o nome escolhido pelos organizadores: Força Angola!

A noite prometia! Não só iríamos ver aquele que tinha sido considerado, nos seus tempos áureos, o rei do Hip Hop, como poderíamos ver um conjunto de bons artistas nacionais, nomeadamente, Pérola, Big Nelo e Armi Squad.

Eu, có-reporter, tinha andado a semana a cantarolar as músicas do R. Kelly e da Pérola e, chegados a Sábado, o entusiasmo ia aumentando progressivamente. Ao longo do dia a agitação e os preparativos na zona envolvente ao estádio dos Coqueiros ia aumentando, e por via dos mesmos fomos mais cedo para lá. Conforme seria de esperar para um evento destes, tudo estava extremamente bem organizado e foi com muita facilidade que nos dirigimos à bancada, não sem antes solicitar a t-shirt do evento, laranja, a cor da Unitel, e com a mensagem adjacente: Força Angola!

Como bons espectadores que somos vestimos a camisola, afinal de contas estávamos ali para apoiar! A maioria fez o mesmo criando um efeito de uma imensa onda laranja em todo o estádio, da qual fazíamos parte!

And... let the show begin...

Armi abriu o espectáculo, com uma equipa de peso, literal e não literalmente, fazendo animar o público e trouxe a primeira surpresa da noite, Yuri da Cunha, que deu um cheirinho da sua música bem ritmada. Depois veio o Big Nelo levando o público feminino a suspirar cada vez que levantava a t-shirt e mostrava o 6 pack  Mas surpresa para mim foi quando cantou o seu hino, como lhe intitulou, em que todas as gerações presentes entoaram o Karga de fio a pavio, sem se perderem, sem se enganarem numa única palavra da canção! Gostando ou não, é impossível ficar indiferente àquela energia gerada! O Big Nelo trouxe ainda dois convidados, os Kuduristas Presidente Gasolina e Príncipe Ouro Negro, que arrancaram muita risada de todos os presentes.

Por último, no âmbito dos artistas nacionais, a Pérola, linda como sempre, cantou todos os hits do seu álbum mais recente que guardo religiosamente. Estas eu e o repórter já sabíamos e cantámos com os demais :)

Depois da Pérola terminar a sua actuação houve um pequeno compasso de espera e eis que entra o R. Kelly, igual a si mesmo, sem pretenciosismos, sem acessos de estrela, próximo dos presentes, dando início à actuação com uma rapsódia dos seus raps mais conhecidos enquanto nos dirigia incentivos “Everybody make some noise!!!!”, levando os presentes ao delírio.

Pelo meio houve muitas baladas a deixar antever a forma como iria terminar o concerto, com aquela canção que era também o seu hino e o de muita gente por este mundo fora.

Quando começaram a ser tocados os primeiros acordes, houve uma onda de emoção que nos percorreu a todos sem excepção, e todos acreditámos durante aqueles minutos que era possível voar, voar para longe, sobretudo junto daqueles que amamos. Estou certa que não foi só naqueles minutos que acreditámos, mas durante muito mais tempo... espero sinceramente que continuemos todos a acreditar! O R. Kelly contribuiu para isso e nós agradecemos da melhor maneira que podíamos, cantando a céu aberto todos os versos da canção. Creio que de certa forma a resposta acabou por o surpreender, parando de cantar para nos ouvir e cruzando as mãos sobre o peito, inclinando-se para o público em jeito de agradecimento, abanando ligeiramente a cabeça alternando entre o incrédulo e o emocionado.

Aqueles minutos em que eu e o repórter nos abraçámos, ouvimos e cantámos que era possível voar, pareceram eternos mas, mais importante que isso, deram-nos um banho de força e energia, não sendo todos os dias que nos sentimos assim longe de casa.

Momentos como este são para preservar nas nossas memórias e nos nossos corações.

E para que não o esqueçamos, aqui fica o registo para podermos continuar a acreditar que somos capazes de voar....

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