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quarta-feira, 6 de julho de 2011

19 de Dezembro – Um balanço do ano e o desejo de regresso a casa…

Depois de ver a maioria dos colegas de casa a ir no sábado à noite a casa ficou apenas para dois… Eu e o Celso éramos os “últimos resistentes”. Nas outras casas haviam também poucos resistentes…

A maioria deles tinham voo marcado para dia 19 às 14 horas (apesar de ter sido alterado o voo original que deveria ter sido dia 18 à noite)… E assim se confirmava que eu estava no grupo dos últimos a regressar a casa.

Aproveitei a noite de sábado para acabar de arrumar as minhas coisas porque, mais uma vez, ia mudar de casa. Agora por motivos diferentes mas, ao regressar, iria desde logo começar uma nova vida… A vida a dois, em Angola, com a Cô-Rpórter.

No domingo, já algo desesperado, estava o amigo Sérgio à espera que concluísse as arrumações para que fossemos almoçar… Lá fomos então ao Lookal onde tudo foi diferente… A refeição, o balanço anual que fizemos, os sentimentos, etc… Foi, sem dúvida, um dos melhores almoços que por cá tive… Tive ainda direito a um “encontro inesperado”… Também a Gisela e o Tó Zé escolheram o Lookal para almoçar…

Tinha que me preparar psicologicamente para o inferno que seria o fim de tarde/noite… No aeroporto estariam, certamente, imensas pessoas e a confusão seria grande… O inferno esperava-me…

Antes da agitação do aeroporto havia ainda tempo para fazer um balanço de 2010… Um ao que, não tendo sido fantástico, trouxe-me a possibilidade de estar ao lado da minha metade para que, juntos, vivêssemos e enfrentássemos as particularidades deste país…

Foi também 2010 e Angola que nos deram a possibilidade de, de facto, iniciarmos a nossa vida a 2…

2011 será diferente, inevitavelmente, e entre as diferenças estará também a ausênsia de uma pessoa que me é muito querida… O Sr. Cabral… Digamos que “o pai de todos nós”. Fará muita falta por cá, sem qualquer dúvida…

Quanto à “novela viagem” digo-vos apenas que foi como se esperava… Os colegas que iriam no domingo às 14 horas, depois de muitos telefonemas para a TAAG, perceberam que a viagem seria apenas às 16 horas e, algum tempo depois, ficaram a saber que seria às 22 horas… À hora que estava agendado o nosso voo…

Nesse grupo estavam pessoas a quem a TAAG disse que não iria viajar… Outras a quem a TAAG garantiu que sairiam às 22 horas… E outras ainda a quem a TAAG não conseguia esclarecer nada… Por isso fomos todos para o aeroporto…

O meu voo não sofreu nenhuma alteração… Saí, de facto, no domingo mas afinal não fui “o último a sair”… Os colegas cujo voo tinha sido adiado ficaram em Luanda com a indicação de que a viagem seria na segunda-feira… A tristeza e o desalento tomou conta de alguns… Afinal de contas viram o voo ser adiado 24 horas, estavam no aeroporto e ficaram a saber que seria atrasada mais 24 horas…

Que grande sufoco…

domingo, 3 de julho de 2011

18 de Dezembro – Viajo ou nem por isso? E quando?

Após o acontecimento de 6 de Dezembro e do cancelamento dos voos pela TAAG seguiram-se alguns dias de indefinições, contra-informação, desinformação e especulação.

A realidade é que durante alguns dias as ligações aéreas da TAAG foram canceladas e ninguém sabia qual seria a decisão da Administração da Empresa (e de todas as autoridades nacionais e internacionais competentes) em relação aos voos seguintes.

E se esta indefinição causa muito transtorno em qualquer altura imagine-se na Época Natalícia.

Relembro que, normalmente, as empresas compram os voos do natal em Janeiro/Fevereiro desse mesmo ano, ou seja, com uma antecedência de praticamente 10 meses. Muitas empresas fretam aviões exclusivamente para os seus funcionários, e as companhias aéreas (TAP e TAAG) possuem listas de espera de cerca de 1.000 pessoas.

Restam opções do tipo: Luanda – Joanesburgo – Lisboa, Luanda – Frankfurt – Lisboa, ou outras ainda mais imaginativas…

Como devem calcular estes foram dias de muita ansiedade e nervosismo… Havia uma grande incerteza que, infelizmente, se manteve praticamente até ao instante em que o avião descolou.

Este ano, para além da ansiedade devido a esta questão, tinha ainda um factor adicional de nervosismo… O último dia de trabalho era sexta-feira e a viagem era apenas no domingo à noite… Ou seja, numa altura em que uma grande parte dos expatriados vão embora, em que a cidade fica significativamente menos populada, eu teria que ficar mais dois dias a “aguardar” que tudo corresse bem e a viagem fosse, de facto, no domingo para então ir ter com a co-repórter.

Aproveitando as viagens de colegas e amigos, fui tentando perceber se poderia ou não haver probleams com a minha viagem…

Dia 17 (sexta-feira), às 2.30 da manhã estava eu a escrever no Facebook:
Voo da Lufthansa marcado para as 22 horas prevê-se que sairá pelas 04.00 da manhã... E as pessoas??? Têm que fazer check-In antes das 21 e não vão poder sair do aeroporto.... Antecipa-se o domingo / segunda-feira vão ser desesperantes...

Dia 18 (sábado), às 8.45 da manhã estava eu a escrever no Facebook:
Voos TAAG de hoje de manhã (Rio de Janeiro e Lisboa) cancelados. Voo TAP está atrasado... Quem chegou ao aeroporto às 5 da manhã ainda aguarda possibilidade de embarque...

Excelentes indicadores para quem pretendia regressar a casa no domingo…
Para matar o tempo mais uma volta pela cidade… Luanda era uma cidade muito vazia… Em cada metro percorrido o desejo de que fosse sempre tão fácil movimentarmo-nos na cidade…

A incerteza mantinha-se… O desejo de regressar era grande pois desde Junho que não regresavaa a casa mas… Ninguém sabia quando é que essa viagem seria de facto…

terça-feira, 5 de outubro de 2010

14 e 15 de Agosto – Um fim-de-semana diferente…

Muitas vezes se diz que não existe oferta cultural em Angola, mais precisamente em Luanda. Bom, é certo que a oferta existente não é de todo semelhante à de muitas capitais mundiais, mas daí a dizer que não existe oferta cultural, vai uma grande distância! Basta procurar um bocadinho, comprar O PAIS às sextas ou pesquisar nuns quantos sites ou blog’s e encontrar o que fazer!

Sob essa perspectiva e de forma a optar por um fim-de-semana mais cultural, aproveitámos a tarde de sábado para ver a exposição que estava patente no Museu Nacional de História Natural!

Já há algum tempo que queríamos ir mas durante a semana é sempre impossível. Como tal confirmámos que estava aberta ao sábado e quando chegámos à entrada surpreendeu-nos que cumprissem com as regras internacionais dos museus, ou seja, abertos todos os dias com excepção da segunda-feira!. Surpreendeu-nos porquê? Não por estarmos em Angola… Mas porque outros organismos que estão neste país para promover a cultura, não o fazem totalmente. Veja-se por exemplo o caso do Centro Cultural Português que abre apenas durante os dias de semana das 9.00 às 17.00 horas, se não estamos em erro… Inviabilizando quase por completo uma visita…

Mas mais surpreendidos ainda ficámos com o preço que pagámos para ver a exposição. 100 Akz cada um…!!! Mas podíamos acreditar, tendo em consideração todo o restante nível de preços praticados no país! Sendo necessário menos de 1€ para ver uma exposição não há mesmo razões para ficar por casa!!!

A exposição era fotográfica, intitulada HEREROS, uma obra de Sérgio Guerra, um reconhecido fotógrafo Brasileiro que passou cerca de dois meses nas províncias do Namibe, Huíla e Cunene, a realizar uma recolha documental com vários subgrupos étnicos dos Hereros aí estabelecidos. O objectivo que deu origem à exposição era fazer um levantamento fotográfico e recolher um conjunto de testemunhos de uma das mais ancestrais etnias que habita não só o Sul de Angola mas também regiões da Namíbia e do Botswana.

O trabalho realizado por Sérgio Guerra foi também convertido num livro, Hereros – Angola, que pode ser adquirido em Portugal e Angola bem como noutros países, editado em Inglês – Português.

A exposição para alem de ter estado patente em Luanda, de 27 de Julho a 26 de Agosto, esteve também em Lisboa, mais precisamente na Perve Galeria, em Alfama, entre os dias 19 de Agosto e 18 de Setembro.


Mas afinal quem são os Hereros????

Os Hereros são um povo proveniente da migração dos bantos da região oriental da África, que se instalou na Namíbia entre os séculos XVII e XVIII, e que desde esse período atravessou décadas de conflito por forma a manter os seus traços culturais que o caracterizam. Actualmente estima-se que os Hereros totalizem cerca 240 mil pessoas, que se distribuem pela Namíbia, Angola e Botswana.

O Ovaherero engloba vários subgrupos e, embora durante o período colonial os europeus tentassem defini-los como grupos étnicos distintos, consideram-se todos Ovaherero. Apesar de divididos em diversos subgrupos, possuem o mesmo idioma herero, além do português em Angola, inglês no Botsuana e inglês e africâner na Namíbia.

Os traços principais da cultura desse povo remontam há 3 mil anos e os seus ancestrais teriam chegado a Angola há pelo menos três séculos – lá se instalaram nas províncias do Cunene, Namibe e Huíla. Com histórico caracterizado pela resistência, opuseram-se à escravidão e outras formas de dominação.

Após a Conferência de Berlim, celebrada entre 1884 e 1885, a Alemanha invadiu o continente africano e além de outras regiões anexou a Namíbia, enviando para a África invasores que pilharam as terras e riquezas da população nativa, difundido a supremacia branca e comparando o povo herero a babuínos. Os homens eram constantemente espancados até à morte e as mulheres vítimas de estupro e escravizadas sexuais dos colonos e soldados alemães.

Como forma de responder às violações que vinham sofrendo, em 12 de Janeiro de 1904 o povo Herero resolveu resistir à investida alemã, liderados por Samuel Maharero. De acordo com os historiadores, essa guerra de libertação teve como consequência o primeiro genocídio do século do XX, e um dos capítulos mais tristes da história, em que 80% dos Hereros foram aniquilados durante um confronto com as tropas alemãs na Namíbia.

Em Angola, eles também se negaram ao domínio perante o colonizador português. Porém não se pode dizer que chegaram ao século XXI absolutamente à parte das populações urbanas que se desenvolveram no país africano a partir da instalação dos europeus. Ou seja, os Hereros de hoje fazem comércio, frequentam escolas, consomem bebidas alcoólicas e alguns trocam os seus bois por carros. No entanto, é inegável que, mesmo não tão isolados do que se habituou a chamar de “civilização”, preservam parte significativa de sua cultura.

O gado é fundamental para entender boa parte do modo de vida dos Hereros. “O boi é tudo para eles, é a sobrevivência. Do boi, tiram tudo. Tutano, leite, o óleo com o qual se banham, o excremento que usam para construir as casas onde moram. É o banco deles. E é muito interessante como descentralizam o património. Têm uma dimensão muito precisa do que necessitam para sobreviver e de como devem ser estruturadas as coisas”, explica Sérgio Guerra.

Um dos aspectos mais reveladores é, sem dúvida, a poligamia da mulher e numa sociedade patriarcal. Enquanto os maridos viajam, transportando gado, elas podem ter relações sexuais fora do casamento. E, caso engravidem, é comum que os maridos assumam os filhos.

Como já comentámos, os traços culturais principais remetem a tradições de mais de três mil anos. Por isso, nas fotografias exibidas por Sérgio Guerra, para além de muitos outros aspectos característicos deste povo, é possível ver imagens de práticas tribais, como a circuncisão infantil e o hábito de se extrair os quatro dentes incisivos permanentes.


Mulheres Muhimbas da aldeia do senhor Tchimbari Kezumo Bingue, Biquifemo, Namibe, em Angola.
Imagem: Sérgio Guerra/Divulgação


Mulher Herero
Imagem: Sérgio Guerra/Divulgação


Mulher e criança Herero
Imagem: Sérgio Guerra/Divulgação

Esta exposição não só nos permitiu disfrutar de excelentes fotografias que captaram com muita realidade a história e cultura deste povo, como nos fizeram descobrir um pouco da sua história e percurso que até então desconhecíamos!

PS: Para saberem um pouco mais sobre os Hereros, podem aproveitar a oportunidade criada por Thomas Balmes, realizador do documentário Babies. O documentário é sobre quatro bebés (sendo um deles Herero), quatro culturas, em quatro países distintos. Ponijao, Bayarjargal, Mari e Hattie vivem na Namíbia, Mongólia, Japão e Estados Unidos, respectivamente. O filme mostra cada um deles desde o nascimento aos primeiros passos. A partir de uma ideia do realizador francês Alain Chabat (“RRRrrrr!!!"," Astérix e Obélix: Missão Cleópatra"), o documentarista Thomas Balmes mostra como, no que concerne ao mais importante, as diferenças entre as culturas podem ser esbatidas e, da mesma maneira que há coisas radicalmente diferentes entre pessoas de diferentes continentes, também existe algo que não foi alterado, nem através do tempo nem pela cultura: o amor, o instinto, a necessidade de proteger e ser protegido.

Para quem está em Portugal ainda tem a oportunidade de o ver até quarta-feira, no C.C. Vasco da Gama, em Lisboa, ou no C.C. Marshopping, em Matosinhos.


No dia seguinte levantámos bem cedinho para ir visitar uma fazenda de criação de cavalos perto do Quifangondo, nos arredores de Luanda, onde reside um dos objectivos de Angola para os Jogos Olímpicos de 2016!

Graças à simpatia dos funcionários pudemos experimentar e disfrutar de uma aula de equitação, onde uns se saíram melhor que outros, mas quanto a isso não vamos falar :)

A boleia no percurso para a fazenda:


O imponente Imbondeiro à entrada da Fazenda


Os estreantes (mas quem sabe futuros praticantes)



O caminho de regresso a casa

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