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quarta-feira, 9 de março de 2011

13 e 14 de Novembro – Fazenda Cabuta (2º dia)

O dia começou bem cedinho, não só por causa dos detalhes da noite anterior e dos habitantes adicionais do nosso quarto, como também pelo facto dos senhores que estão a construir mais quartos e apartamentos serem chineses e terem começado a fazer blocos de cimento logo às 8 em ponto!

Tomámos o pequeno-almoço com um grupo de viajantes que andavam a fazer um rally tour por Angola, sendo aquela uma das paragens, e seguimos para a visita oficial à fazenda acompanhados de um dos trabalhadores locais.

Passámos pelas roças de café e apercebemo-nos da real dimensão da fazenda. O nosso guia levou-nos ao miradouro do qual se tem uma vista magnífica do vale do Kwanza, permitindo óptimos registos fotográficos. Visitámos ainda a casa do dono da Fazenda e as fábricas do Óleo de Palma e de sabão. A fábrica de sabão está completamente abandonada, mas no que respeita ao Óleo de Palma, foi construída uma nova que se encontra em produção.












O guia deixou-nos estar bastante tempo à vontade e pudémos recolher imensas fotografias e conversar com algumas das pessoas que passavam, nomeadamente um grupo de 3 crianças que consertavam os travões da sua bicicleta.








As horas avançavam, era tempo de nos fazermos à estrada, e tínhamos desde logo uma missão, encontrar um posto de venda de combustível nos próximos 100kms. Sabíamos que essa missão seria difícil, mas mais ainda, sabíamos que tinha que ser executada em Calulo.

Antes de chegar à vila, e no percurso em picada, encontrámos uma senhora pelo caminho a pedir boleia. Transportava uma quantidade enorme de lenha e trazia consigo um bebé de colo. Imaginamos o tempo que demoraria a chegar se tivesse feito o trajecto a pé... Segurámos no bebé durante o percurso e ao devolvê-lo à mãe tive a felicidade de ser presenteada com um sorriso magnífico que deu origem a este momento registado de forma formidável pelo Lu

Autoria da Fotografia: Ludgero e Andreia

Encher o depósito não foi difícil, apesar de ambas as bombas estarem fechadas. Mas, postos de combustível diferentes dos “tradicionais”, não eram escassos :)



Autoria das Fotografias: Ludgero e Andreia

Percorremos novamente o mesmo caminho e propus uma paragem em Cambambe para almoçar. Infelizmente o restaurante da Pousada já estava a fechar, mas indicaram-nos outra possibilidade muito próxima onde muitos turistas iam, a Ti Libina. Antes mesmo de nos dirigirmos aproveitámos para ver a paisagem envolvente, com o Kwanza mesmo por baixo de nós.




Autoria das Fotografias: Ludgero e Andreia

Aquilo que julgávamos ser um restaurante não era mais do que a casa da Ti Libina, o terraço onde tem o grelhador e uma bela de arca frigorífica abastecida de refrigerantes e Ekas, e um jango. Quando perguntámos ser ainda serviam almoços, responderam de imediato que sim, mas só churrasco, que era o que estavam a preparar para a família. Entreolhámo-nos e dissémos que sim, sendo gentilmente conduzidos ao Jango.

Aqueles momentos que ali passámos no jango da ti Libina foram um regresso ao passado, com recordações do tempo de infância, motivadas pelas garrafas em que nos trouxeram as bebidas. O frango estava óptimo, acompanhado de salada de tomate ali cultivado e batatinhas acabadinhas de fritar. Que gosto é comer batatas fritas sem serem congeladas! Algo cada vez mais raro.




Depois do repasto e com o estômago reconfortado seguimos caminho em direcção a Luanda, com a aproximação do final de um fim-de-semana que parecia ter sido muito mais longo do que na realidade foi. A verdade é que os momentos vividos em boa companhia, as conversas com as pessoas que fomos encontrando, as paisagens que tivémos oportunidade de ver e registar, fizeram daquele fim-de-semana pequenino, um grande fim-de-semana!

PS: Para quem estiver interessado, e porque foi difícil para nós encontrar os contactos de ambos os locais, aqui ficam:

Pousada de Cambambe: Telefone fixo 235 205 007 / Telemóvel 913 533 680
Fazenda Cabuta – Telemóvel 917 910 000 / 919 977 004

terça-feira, 8 de março de 2011

13 e 14 de Novembro – Fazenda Cabuta (1º dia)

Quem nos conhece sabe que não somos de desistir! E eu pessoalmente, co-reporter, não descansei enquanto não convenci o reporter, o Lu e a Andreia, a irmos aproveitar o pouquinho do fim-de-semana grande que nos restava, ou seja, Sábado e Domingo, para irmos passear!

É certo que não iriamos para longe, até à minha tão desejada Benguela, ou Malanje, mas havia mais opções na manga e até conseguirmos uma reserva não descansaria!

A primeira tentativa, justificada pela proximidade que representava tendo em consideração o tempo que tinhamos disponível, foi Cambambe, mais precisamente a Pousada que é actualmente gerida pelo ENE. Resposta: LOTADA! Isto uma semana antes do fim-de-semana propriamente dito. Ok, nada de desistir, seguia-se a próxima tentativa, um bocadinho mais longe, na altura em que liguei não sabia bem quanto  Fazenda Cabuta, próxima de Calulo, no Kwanza Sul! Não se acerta à primeira, acerta-se à segunda! Havia quartos disponíveis e reservaram-se dois!

Et voilá! Agora era só aguardar por sábado e seguir destino!

Mesmo não sabendo, este fim-de-semana ia-nos reservar uma surpresa, mais que isso, uma constatação que muitas vezes ignoramos, quando menos esperamos somos surpreendidos com a simplicidade dos lugares, das coisas, das gentes, e quanto menos expectativas construímos e quanto menos planeamos, mais disfrutamos do que vivemos e experenciamos!

No sábado de manhã lá seguimos destino, iniciando o percurso primeiro até ao Dondo. A paisagem é maravilhosa e passamos vários rios, mercados à beira da estrada, fazemos todo o percurso junto à linha de comboio!





Autoria das Fotos: Ludgero e Andreia

Iamos acompanhados de música apropriada, nacional claro está!, que um colega do repórter tinha deixado na carrinha que nos foi concedida para o trajecto. E, tão igualmente importante, do farnel preparado pela Andreia, já que nós só contribuimos com água e bolinhos secos da Nilo! Sei que comemos muito e muitas coisinhas boas pelo caminho, mas não podia deixar de fazer menção às empadinhas com o toque de oregãos em cima! Deliciosas minha querida, não queres fazer mais? :) Quem sabe para a próxima viagem com direito a pic-nic?! Hum???

Ao chegar ao Dondo, e depois de passarmos o Alto Dondo, seguimos em direcção ao Huambo, onde passados alguns kilómetros avistamos o cruzamento para Cambambe, que era a nossa primeira opção, mas continuamos caminho!

Passados umas poucas dezenas de kilómetros, e quando viramos à esquerda para o Calulo, a paisagem altera-se, tornando-se muito montanhosa e ainda mais verde. É nesta parte do trajecto que temos a oportunidade de reter e ver aquelas paisagens que fazem parte do imaginário de todos, uma estrada de kilómetros num sobe e desce magnífico a fazer perder de vista:


Autoria da Foto: Ludgero e Andreia

Mais uns kilómetros e chegámos ao Calulo, uma vila pequena mas muito simpática, com um largo a fazer lembrar as aldeias das nossas infâncias, onde nos reuniamos com os nossos amigos logo após o jantar para as brincadeiras habituais, no meu caso, sob o olhar atento dos meus avós.


Autoria das Fotos: Ludgero e Andreia

Além de simpática era igualmente muito tranquila e organizada. Aproveitámos para pedir indicações sobre a fazenda, pois a partir dali já não sabiamos por donde seguir, apesar do senhor que me atendeu por telefone ter dito que sim, que havia indicações. Estou em crer que naquele momento ele não percebeu o que eu quis dizer, ou talvez tivesse percebido que havia quem desse indicações, pois placas a indicar a fazenda nem vê-las. Mas havia uma razão forte para eu acreditar que foi realmente um problema de expressão, e já vão perceber porquê...

Do Calulo até à Fazenda era sempre em picada, nada de muito duro, mas ainda uns bons kilómetros, que claro, parecem muito mais do que na realidade são :) A dada altura por pensarmos que já estávamos perdidos, perguntávamos pela Fazenda a um senhor que trabalhava por ali, que felizmente nos confirmou o contrário, afirmando que era já ali à frente.

Umas fotografias a meio do percurso…



Autoria das Fotos: Ludgero e Andreia

E era mesmo! Aproveitámos que estavam a processar um abastecimento de água para tirar umas fotos à entrada, daquelas postal, que toda a gente tira:


Autoria das Fotos: Ludgero e Andreia

A entrada na Fazenda fazia-se por um caminho ladeado de árvores que conduzia até à entrada e casa principal. Pelo caminho encontrámos dois meninos que transportavam uma múcua gigante na mão, com quem conversámos durante um bocadinho e aos quais demos boleia até à entrada. Moravam numa das aldeias que passámos durante a picada e iam ver o jogo de futebol que estava a decorrer no campo da Fazenda.



Autoria das Fotos: Ludgero e Andreia

Ao chegarmos ao edifício principal não encontrámos ninguém de imediato. Contornámos o mesmo e deparámo-nos com um outro edifício de apoio que parecia ser um restaurante. Um senhor dirigou-se à entrada e perguntou se desejávamos alguma coisa. Expliquei que tínhamos uma reserva em meu nome, para dois quartos duplos, pediu o meu nome para confirmar na lista e informou-nos que não existia qualquer reserva. Voltei a explicar como tudo se processou, que tinha ligado na segunda-feira para reserva, que falei com um senhor com um sotaque entre o espanhol e italiano, o qual nos tinha aceite a reserva. Foi então que o senhor disse de imediato “há, pronto, mas essas reservas não são feitas comigos, têm que ir além àquelas casas à procura do cubano para lhe perguntar e pedir a chave”.

E assim se explica a questão que mencionei anterior do problema de expressão :)

Lá nos dirigimos às casas indicadas sem sabermos ao certo onde e qual era. Lá conseguimos identificar um grupo de pessoas e posteriormente a mulher do senhor cubano que nos confirmou que não havia nenhum problema com as reservas, que o marido estava mesmo a chegar e nos daria as chaves dos quartos.

Na realidade não havia quartos ainda designados e depois do senhor chegar deu-nos a escolher entre as suites da casa principal e os quartos dos anexos construídos, com a consequente variação de preços. Bom, achámos que os quartos eram perfeitamente razoáveis numa relação qualidade-preço e ficámos por ali... mas ficámos mal! Mais tarde viriamos a arrepender-nos de não ficar nas belas suites  Pelo que aconselhamos a todos os que por ali passem que, sem dúvida alguma, escolham as suites!

Depois de instalados fizémos o primeiro reconhecimento da Fazenda. A Fazenda é propriedade do antigo ministro Higino Carneiro e dedica-se essencialmente à produção de café, tendo duas marcas próprias, o Calulo e o Bela Negra, que podem ser adquiridos localmente embora as marcas sejam essencialmente para exportação.









A Fazenda tem uma construção do tipo colonial e ficámos a saber que era propriedade de um senhor Holandês. Actualmente é gerida por cubanos, um deles o senhor que nos reservou os quartos, sendo que a generalidade das pessoas das aldeias próximas trabalham ali. Existe uma escola e um hospital, em que os médicos e enfermeiros são cubanos também, estando ali ao abrigo de um protocolo.

Na realidade toda a envolvente faz parecer que as pessoas vivem em comunidade naquele espaço. Ainda pudémos assistir ao final do jogo de futebol e ser contemplados com um pôr do sol maravilhoso, como só África tem para dar.








Antes mesmo de jantar, aproveitámos os últimos rasgos de luz do dia e a mistura magnífica de cores no céu, no alpendre do restaurante enquanto tomávamos os habituais gins e águas tónicas!

O dia já ia longo e havia que dirigir aos aposentos, sem uma única luz pelo caminho. Felizmente o percurso era curto... ao chegarmos não imaginámos a recepção que teríamos :) Muitos, mas muitos mesmo, mosquitos para matar e, no nosso caso, um animalzinho que pernoita nos meus piores pesadelos, uma osga!! :) Foi aí que percebemos que as suites teriam sido uma muito melhor opção. É que a porta do quarto tinha uma fresta de cerca de 5 cm deixando passar toda a mosquitada e alguns animais rastejantes... escusado será dizer que não se dormiu muito, e a meio da noite ainda houve uma segunda inspecção ao quarto para averiguar a existência de mais amiguinhos!

PS: Contacto da Fazenda disponível no post seguinte.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

12 de Novembro – Canceladas celebrações 11 de Novembro nos EUA

Foi a festa que ficou estragada e algo mais....

Naquele dia o repórter acordou não tão cedo como habitualmente, mas ainda assim cedo :), e foi trabalhar enquanto eu, co-repórter, fiquei a aproveitar a caminha e a ponte que tinha sido concedida para dormir mais um bocadinho. Naquele início de dia nunca adivinharíamos o que se tinha passado do outro lado do Atlântico, mais a Norte. Na realidade já tinha acontecido na véspera do feriado, mas os comuns dos mortais só tiveram conhecimento alguns dias depois, na semana seguinte.

Na realidade nada podia fazer prever o que aconteceu e a infeliz coincidência da data daquela decisão. Bom, nada fazia prever não é necessariamente verdade. Depois de alguns acontecimentos passados muitas coisas podiam acontecer entre elas esta, mas realmente, e não querendo substituir-nos a juízos mais indicados, não só a data foi infeliz como também a forma como tudo se processou.

E o que se sucedeu foi que o Bank of America cancelou, justo nas vésperas do feriado, todas as contas que a Embaixada de Angola tinha junto daquela instituição. Ora bem, isto em si já constitui um problema pela forma sem aviso desta decisão, se acrescentarmos o facto da Embaixada não ter naquele país mais contas abertas junto de outras instituições financeiras e como tal ficar impossibilitada de movimentar qualquer quantia de dinheiro, a coisa complica-se. Se por fim tivermos em consideração que haviam eventos programados, festejos para a comunidade Angolana nos EUA de forma a poderem celebrar também elas a independência do seu país, artistas como a Yola Semedo que se deslocaram para lá, fornecedores e serviços que foram contratados, pessoas mobilizadas, que tinham que ser pagos a tempo e horas e deixaram de poder ser, originando assim o cancelamento das celebrações, ficamos perante um problema grande e sério.

Terá sido tudo isto que passou pela cabeça dos diplomatas Angolanos nos EUA, do Governo e do Presidente. Imaginamos que mais ainda terá passado, como a humilhação de transmitir a mensagem de cancelamento para quem aqueles momentos de festejos seriam uma aproximação a casa, ao país e às famílias que se encontram longe, ou tão simplesmente a distracção que habitualmente não têm ou não podem ter. Por tudo isto a situação foi tomada a peito, foi interpretada, julgada, demorou a ser comunicada oficialmente mas quando foi deu origem a reportagens em jornais e telejornais nacionais e internacionais, a artigos de opinião, a muitas conversas onde se falava da mensagem transmitida pelo Governo Angolano que incluia a palavra retaliação.

Por norma, eu, co-reporter, acredito na bondade das pessoas no principio de que todos são inocentes até se provar o contrário, por isso sempre estive em crer que o Bank of America não tinha realmente noção do dia que se aproximava e não considerou isso na sua decisão. Por outro lado também não entendeu o alcance da mesma em todos os níveis, e foi por tudo isto que a situação se transformou num incidente diplomático. Daquele dia em diante, o Bank of America não era o culpado, os culpados passaram a ser os Americanos, de uma forma generalizada, e também o seu Governo.

Recordo perfeitamente o email que recebi de uma amiga que trabalha em Londres a perguntar “É verdade que está aberta uma crise diplomática entre Angola e os EUA, porque fecharam as contas da embaixada angolana e agora o Governo Angolano ameaça responder na mesma moeda ou pior?” Nas palavras desta minha amiga, resultantes possivelmente de notícias que tinha lido ou ouvido, já nem sequer existia o Bank of America, nem qualquer menção ao Feriado da Independência, a situação foi abreviada mas sobretudo ampliada.

Na realidade, pouco mais se soube publicamente sobre o incidente, mas as consequências essas continuam a ser esperadas e, poderão não ser apenas para os americanos...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

11 de Novembro – Feriado: Dia da Independência

Embora se diga que Angola tem muitos feriados, o que comparativamente a Portugal faz com que o número dos mesmos seja inferior, este será sem dúvida, na nossa opinião, o feriado mais importante que se celebra no país, sobretudo se considerarmos o seu passado e história recente.

É certo que a luta pela independência começou muito antes, e há feriados que assinalam esses marcos na história de Angola, já referidos por nós em posts anteriores, mas o 11 de Novembro marca efectivamente o dia da Liberdade e o fim oficial do colonialismo.

Este ano a celebração do feriado, que costuma ser seriamente engalanada, assumia especial importância pois festejava-se o 35º aniversário da Independência. Cerca de duas semanas antes a cidade começou a “vestir-se” e preparar-se para o evento. Por toda a cidade foram espalhados cartazes, luzes e anúncios anunciando o número 35 como marco histórico. Foram concluídas algumas obras de reabilitação nas zonas que conduziam aos principais locais dos festejos. (Sim, nós portugueses achamos que só no nosso país é que isto acontece mas começamos a perceber que as obras de campanha e festejos andam mesmo pelo mundo fora!).

Contudo havia um facto que ameaçava retirar assistência aos festejos. O feriado iria calhar numa quinta-feira e foi concedida tolerância de ponto pelo Governo. Dessa forma antecipava-se que muito mais que celebrar o feriado, muita gente aproveitasse o fim-de-semana prolongado para viajar ou visitar as províncias. E a realidade é que na véspera do feriado o trânsito caótico em todas as principais artérias de saída/entrada da cidade indicava isso mesmo, a cidade iria estar deserta nos dias seguintes. Passamos desde já a explicar – Deserta nunca estaria, na verdadeira acepção, mas este adjectivo aplica-se por comparação à quantidade de gente que habitualmente circunda por Luanda.

Infelizmente nós iriamos mesmo ser dos poucos que permaneceriam na cidade. Apesar de eu, co-reporter, ter tido tolerância de ponto, o reporter não teve igual sorte, o que em dizer, inviabilizou a possibilidade de irmos até terras mais longínquas :)

Mas nem tudo é mau, no dia 11 tivémos a cidade toda para nós, não havia filas para nada, aproveitámos para despachar algumas coisas que tinhamos pendentes e fomos para um belo almocito num dos libaneses da cidade. A bem dizer fomos embuchar muita gordurinha com um Kebab do tamanho do mundo no Al-Amir, enquanto assistiamos na televisão às celebrações do 11 de Novembro por todo o território angolano, muitas vezes distraídos pelas conversas agitadas em árabe. Não nos recordamos com exactidão, mas durante aquela hora e pouco que ali estivémos foram inauguradas para cima de muitas estradas, pontes, escolas, hospitais, centrais hidrícas, em muitas províncias angolanas. Oxalá houvessem muitos 11 de Novembros durante todo o ano... mas pelo menos já é um começo!

Mas afinal estamos para aqui a falar, a falar, entenda-se, a escrever, a escrever... e não falámos ainda do feriado do ponto de vista histórico. Se analisarmos minuciosamente a independência não foi proclamada no dia 11, mas sim no dia 10 de Novembro, contudo para produzir efeitos a partir do dia seguinte. Por essa razão foi assinalado o dia 11 como dia da independência.

Melhor explicando, após o fim da ditadura em Portugal, com o golpe de estado de 25 de Abril de 1974, criaram-se perspectivas para a independência de Angola e de outros estados coloniais. Os novos governos portugueses constituídos no pós-revolução, foram iniciando negociações com os três principais movimentos de libertação angolanos (MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, FNLA - Frente Nacional de Libertação de Angola e UNITA - União Nacional para a Independência Total de Angola), e dando assim origem a um período de transição para a implantação de um regime democrático em Angola (iniciado como o Acordo de Alvor, assinado a 15 de Janeiro de 1975).

No dia 10 de Novembro de 1975, o Alto Comissário e Governador-Geral de Angola, o Almirante Leonel Cardoso, em nome do Governo Português, proclamou a independência de Angola. Desta forma transferia a soberania e o domínio até então mantido por Portugal, para o Povo Angolano, o que ocorreria de forma efectiva a partir do dia 11 de Novembro. O facto de transferir a soberania para o Povo Angolano era uma forma de dizer e deixar claro que a mesma não era transferida para nenhum movimento político em particular. Muitas discussões já se tiveram em redor desta decisão e, sinceramente, não queremos analisar os factos por muitas e variadas razões, apenas transmiti-los. Foi com estas palavras que o Almirante proclamou a independência (transcrição de parte do discurso):

"E assim Portugal entrega Angola aos angolanos, depois de quase 500 anos de presença, durante os quais se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir. Os homens desaparecem, mas a obra fica. Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter de que se envergonhar. Deixa um país que está na vanguarda dos estados africanos, deixa um país de que se orgulha e de que todos os angolanos podem orgulhar-se".

Ainda assim controlo de Angola foi dividido pelos três maiores movimentos de libertação, então denominados grupos nacionalistas MPLA, UNITA e FNLA, pelo que a independência foi proclamada de forma unilateral pelos três.

O MPLA, que à data controlava a capital, Luanda, proclamou a Independência da República Popular de Angola por volta das 23h00 do próprio dia 11 de Novembro de 1975, através do seu presidente, Agostinho Neto, dizendo, "diante de África e do mundo proclamo a Independência de Angola”. Com estas palavras chegava ao fim à luta empreendida pela independência iniciada no dia 4 de Fevereiro de 1961, com a luta de libertação nacional, estabelecendo o governo em Luanda com a Presidência entregue ao líder do partido.

Já Holden Roberto, líder da FNLA, proclamava a Independência da República Popular e Democrática de Angola cerca da meia-noite do mesmo dia 11 de Novembro, no Ambriz, na província do Bengo.

Nesse mesmo dia, a independência foi também proclamada no Huambo, por Jonas Savimbi, líder da UNITA.

Contudo apenas prevaleceu como independência reconhecida internacionalmente, a que foi proclamada pelo MPLA, passando assim a FNLA e a UNITA, a partidos da oposição.

Esta divisão partidária e de luta pela governação do país antevia os acontecimentos que se sucederam, mas para a história ficou o 11 de Novembro como o dia da Independência de Angola.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

10 de Novembro – Angola Vs SL Benfica

 
Apesar da polémica criada pela comunicação social devido à deslocação do SL Benfica a Luanda, sobretudo por causa do momento sensível da época, houve, de facto, espectáculo…

Isso mesmo… Houve espectáculo…

Não só o protagonizado pelos jogadores no relvado mas também o que o que o povo Angolano fez para receber, acompanhar e saudar os atletas do “Glorioso”.

O jogo, agendado para celebrar os 35 anos de independência da República de Angola, decorreu em ambiente de grande festa… A chegada do Benfica ao aeroporto teve fortes medidas de segurança, tal como seria de esperar, mas apenas porque a afluência foi grande… Não porque se receasse que algo fosse acontecer…

Durante todo o dia a romaria foi grande para o estádio… Havia música, “comes e bebes” e muita alegria enquanto aguardavam pelo inicio do jogo que se realizou no novo Estádio de Luanda, o Estádio 11 de Novembro.

Para a história fica um 0 – 2 num jogo interessante mas, como diria o Rui Santos, sem grande intensidade… Para a história fica também o motivo de orgulho e festa que é, para o Povo Angolano, a vinda do SL Benfica.

Aqui fica uma notícia do “lançamento” do jogo:

domingo, 20 de fevereiro de 2011

7 de Novembro – Chá de Caxinde - Relembrar o presente com recurso ao passado – Luanda 18 anos depois

Este foi um daqueles Domingos sem expectativas nenhumas. Não tínhamos nada planeado e iríamos aproveitar o dia à medida que ele fosse decorrendo.

Eu, co-reporter, finalmente consegui dormir até às 10h00 da manhã! Acho sinceramente que foi um record que estabeleci em Luanda, que deixou o repórter feliz da vida :)

Depois de acordarmos, pôr-mos a conversa em dia com a famelga e comermos um belo de um pequeno almoço fora de horas, que é o mesmo que dizer, já perto da hora de almoço, saímos à rua à procura de algo para fazer!

Infelizmente começámos a pensar que a sorte não estava do nosso lado. Fizemos um périplo pelos espaços de exposições da Trienal, Globo, UNAP e Museu Nacional de História Natural e nada... tinha terminado o primeiro ciclo de exposições e estavam na fase de interrupção até ao segundo ciclo que inicia em meados de Novembro. Mas a visita ao Museu não foi totalmente perdida. Os mais atentos e fieis leitores deste blog já saberão de uma das minhas paixões no que respeita à cidade de Luanda, o prédio da Cuca!! Foi dos primeiros locais que vi quando cheguei à cidade e sempre andei a chatear o repórter para recolher fotografias do prédio e com o prédio! Ora nem mais... o Museu fica no extremo oposto do Largo do Kinaxixe (ou Kinaxixi, como prefirirem), e a oportunidade era a ideal, sem trânsito, sem movimento, com bastante luz natural e bem posicionados, tínhamos o cenário perfeito para os disparos fotográficos pretendidos!

Aqui ficam apenas dois dos registos recolhidos deste belo conjunto arquitectónico e cénico, na minha modesta opinião:




E uma brincadeira do repórter...


Regressamos a casa, tratámos de alguma lida doméstica, perdão, não deveria colocar o verbo tratar no plural, mas sim no singular...  e já com o estômago a pedir reforço fomos até ao Cais de 4 para um almoço tardio. Em Luanda há vários sítios bons para se comer e estar, mas talvez o Cais de 4 seja um dos que melhor conjuga estes dois verbos! A vista é magnífica, sem dúvida a melhor que se pode ter da Baía de Luanda, a comida, sem ter direito a uma estrela Michelin, é muito boa também, o que faz com que seja o local ideal para um almoço relaxado ou um jantar romântico. (Desculpem não utilizar o factor preço, mas sinceramente, em Luanda... não tem relevância... depois de algum tempo percebemos que só existe caro e muito caro, e depois de outro tanto tempo acabamos por perceber que, infelizmente, esse é mesmo o padrão...)

Ao final da tarde, e aproveitando o tempo livre que antecedia o clássico Porto-Benfica, fomos até ao Chá de Caxinde ver um filme, integrante do programa da trienal. O nome era sugestivo, O Miradouro da Lua, sem dúvida um dos principais monumentos paisagísticos dos arredores de Luanda, e representava a primeira co-produção lusoangolana, realizada no ano de 1992, marco histórico importante para este país.


Antes do filme iniciar fomos brevemente conduzidos pela história do mesmo, bem como por aquela que o antecedeu e acompanhou, através do próprio realizador, Jorge António, que se encontrava na sala.

Um pequeno aparte, o Chá de Caxinde é uma organização que assume extrema importância em Luanda do ponto de vista de divulgação cultural. Para além do cine-teatro onde se podem assistir a projecções de filmes e documentários, concertos, peças de teatro, existe também uma livraria e editora, um local para a prática de danças tradicionais e internacionais, um bar e um restaurante. É por exemplo neste local que se pode assistir aos concertos da Banda Maravilha, uma das mais conceituadas bandas de música popular angolana, todas as segundas-feiras! Mas em breve falaremos desta experiência em primeira pessoa.

Continuando...

O Jorge António falou da experiência de realizar um filme numa altura conturbada, como a do ano de 1992, em que decorreram as primeiras eleições livres em Angola, da escassez de recursos, do improviso na condução do filme, em que basicamente a gravação das cenas se ia desenrolando à medida das possibilidades existentes e das ideias que iam surgindo, mas chamou também a atenção para a Luanda de 1992. Segundo o realizador, aquele filme permitiria aos presentes não só recordar e reconhecer lugares da cidade, como perceber as diferenças que a separam dos dias de hoje. Algumas das pessoas que já visionaram o filme e conhecem a cidade actual, chegaram mesmo a perguntar-lhe “mas vocês tiraram os carros das ruas para filmarem as cenas de rua?” Todos os presentes sorriram perante tal afirmação, e o realizador reiterou “acreditem que não retirámos absolutamente nada, Luanda era mesmo assim, sossegada e praticamente sem carros”.

Por último apresentou-nos ainda uma das “actrizes” do filme que estava presente na sala, a Dª Custódia, para quem pediu uma salva de palmas. A Dª Custódia era uma senhora da casa dos 60, que aparentava ter alguma ligação prévia de amizade com o Jorge António, tendo a sua participação no filme sido improvisada, daí as aspas em torno da palavra “actrizes”.

De imediato ficámos com vontade de falar com ela e colocar-lhe uma série de perguntas... mas aguardaríamos pelo final do filme para saber se era possível...
O filme tem início em Lisboa, saltando à vista nomes aos quais estamos habituados, Vítor Norte, João Baião, João Cabral, Joaquim Paulo e José Meireles. Desde logo se percebe um pouco da história e a forma como se vai desenrolar. João Cabral é o actor principal, assumindo o mesmo nome, que vai partir em busca do pai que não vê desde criança, o qual vive em Luanda! A mãe, a veterana Isabel de Castro, embora um pouco incomodada com a viagem do filho, acaba por se resignar à ideia.
Na viagem de avião o João conhece a Sol, uma estudante angolana a regressar de férias, que viria a revelar-se uma ajuda preciosa em Angola. Aqui começam os pormenores que tornam o filme interessante com estes 18 anos de distância. O João, a par com outras pessoas, acende um cigarro dentro do avião. Pode parecer algo estranha a minha surpresa perante tal facto, mas nunca assisti a algo semelhante e nunca voei com tal permissão. Agora percebo a insistência dos avisos em todos os voos, afinal há ainda muita gente na actualidade que se recorda do tempo em se podia fumar num avião.

Mas o filme começa realmente a ganhar interesse a partir do momento em que o João aterra em Luanda no 4 de Fevereiro. O repórter ainda se lembra de uma parte antiga do aeroporto que se vê no filme, eu já não, mas há coisas que nos provocam risos de cumplicidade aos dois e a todos os presentes.

O João, perante a ausência do pai no aeroporto e a oferta de boleia da Sol e do irmão que a tinha ido buscar, diz: Não se preocupem, eu apanho um táxi! Não só a Sol e o irmão se desatam a rir, como todos nós também. Táxi em primeiro lugar é o nome dado aos Kandongueiros, as carrinhas Hiace que transportam as pessoas, em segundo lugar táxi, tal como se conhece habitualmente, é algo que não existia naquela época. E hoje... bom, existe uma empresa de táxis, mas os serviços são só por pedido antecipado e às vezes nem assim.

Depois existem uma série de lugares visitados no filme que nos fazem reviver a cidade. Por coincidência, a primeira rua em que o João vai à procura do pai é quase a nossa rua actual, o que nos faz trocar um comentário cúmplice e esboçar um sorriso. Já a rua onde a Sol mora tem um significado enorme para mim e para o repórter, a segunda morada onde o João vai à procura do pai é onde o repórter trabalha, aliás, a casa é ao lado do escritório do repórter... Há também uma série de locais marcantes, alguns que ainda existem e funcionam, outros não, entre outros o Hotel Panorama, actualmente abandonado, o cine Miramar, o bar /discoteca Pandemonium, o terraço do trópico, o Elinga Teatro.

O filme é marcado por uma série de encontros e desencontros na busca pelo pai, e é entre esses encontros e desencontros que ocorrem os passeios comuns como a visita ao Mussulo, em que os barcos parecem ser os mesmos dos dias de hoje, e às praias a seguir a Benfica, perto das Palmeirinhas.

E claro que o Jorge António tinha razão, Luanda era mesmo uma cidade diferente da dos dias de hoje, sem o trânsito frenético e caótico ao que estamos habituados, tudo parecia ser muito mais tranquilo.

Como acaba... não vamos contar, apenas vos podemos dizer que acaba aqui, com o João a gritar aos sete ventos que vai ficar...


Miradouro da Lua

No fim, e porque a curiosidade matava a respeito da rua onde o João vai à procura do pai na segunda morada que lhe deram, dirigimo-nos à Dª Custódia que nos confirmou. Era mesmo a rua onde o repórter trabalha! Contou-nos algumas peripécias sobre o filme e o nosso sexto sentido estava certo. A Dª Custódia era amiga do realizador, porque aparentemente um dos filhos e o Jorge estudavam juntos em Lisboa e, nas palavras da própria “O Jorge estava sempre a dizer: oh cota, um dia hás-de aparecer num filme meu, vais ver! E eu sempre a rir, até que um dia me apareceu na casa de Luanda com a malta toda e disse: oh cota, é hoje que vais aparecer! E assim foi, foram filmando e ficaram todos a dormir lá em casa” finalizando com uma gargalhada saudosista.

Há dias assim... em que temos muita sorte por poder viver momentos destes, relembrar o presente e visitar um passado recente!

E para quem quiser acompanhar a obra da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, aqui fica o link: http://www.chadecaxinde.net/

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