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sábado, 16 de outubro de 2010

23 de Agosto – O primeiro ano na Terra Avermelhada

Muito haveria a dizer sobre este primeiro ano na Terra Avermelhada…

Mas o blog tem essa vantagem e objectivo… Registar todas essas “pequenas” coisas que nos vão acontecendo diariamente e que, invariavelmente nos marcam, mas que num momento de balanço anual pouca relevância assumem.

Por isso mesmo a tarefa fica muito mais facilitada e este será um balanço genérico sobre o que sinto, como vejo este país um ano depois e quais as perspectivas futuras.














Em primeiro lugar sinto-me muito feliz. Após 11 meses sozinho na Terra Avermelhada, neste momento já tenho a minha metade junto a mim e, portanto, a vivência torna-se mais fácil e, sem qualquer dúvida, melhor.

Penso que foi perceptível nos textos que fui inserindo no blog mas, apesar de todas as diferenças compreensivas (e de todas as outras que a milhares de km’s de distância não são perceptíveis), realço: A minha metade era mesmo a única coisa que me faltava (daquelas que são possíveis porque, evidentemente, preferia ter cá aqueles amigos especiais, a família, etc) porque Luanda (e Angola) não é um local onde me sinta desenquadrado… Não é um local onde não goste de estar… Evidentemente que poderia ter muitos outros atractivos, que poderia ser mais “europeia” em algumas vertentes e poderia ser muito mais agradável… Mas não é.

Não é mas com o tempo aprendi que não vale a pena “encalhar” nessas inexistências/problemas porque existem muitas outras coisas boas de que podemos tirar partido. Por isso, julgo, o segredo é concentrar a nossa energia nas coisas boas e nas coisas que gostamos realmente de fazer para que possamos sentir-nos bem.










Em segundo lugar, a forma como vejo este país… Não é fácil… Antes de vir imaginava uma cidade completamente destruída, em que havia falta de tudo e em que a insegurança fazia com que as pessoas não saíssem de casa, etc…

Apesar de não estar totalmente longe da realidade, existem algumas diferenças… A cidade está muito degradada, é verdade, e esse é o reflexo de 30 anos de guerra em que as estradas, os edifícios, os jardins, etc não tiveram qualquer manutenção. Não existe, ao contrário do que eu pensava, uma degradação causada pela guerra. Em Luanda existem (nesta altura) 3 ou 4 locais em que a degradação se deve directamente à guerra e são locais muito específicos que, um dia, mostrarei a quem está desse lado…

Contudo, opondo-se a essa degradação, existe uma quantidade (absurda diria eu) de edifícios novos e em construção que pretendem colmatar as necessidades do país. Falo de hóteis, de habitações e escritórios que fazem com que qualquer recém chegado diga “mas esta cidade é um estaleiro”. E é de facto… E aí, apesar dos diversos transtornos que isso provoca, está um dos pontos que considero positivo… A cidade está em permanente mudança e melhoria a uma velocidade que eu nunca tinha visto…

Ao contrário de Lisboa, ou das restantes cidades que conheço, em Luanda tudo está por fazer e, neste momento, tudo está a ser feito e, por isso mesmo, de dia para dia notam-se as mudanças. Digamos que, quem cá está acompanha a evolução da cidade e, consequentemente, do país.

Vemos edifícios a ser derrubados e outros a nascerem. Vemos ruas a serem alargadas, outras a serem criadas e outras a serem reabilitadas. Vemos surgir dia após dia novas ofertas a nível de espectáculos culturais (apesar de serem ainda poucos), ou de actividades de lazer, ou de infra-estruturas de turismo, ou melhorias a nível de acessos à internet, ou de melhorias nas comunicações móveis ou… Ou tudo…

Tudo o que se possa imaginar muda, diria, quase diariamente neste neste país.

Apenas a título de exemplo refiro a não utilização do FAX. Julgo que esse é um excelente exemplo… Enquanto que em Portugal se podem definir diversas fases que, invariavelmente, estão associadas ao avanço tecnológico, em Angola não é assim… Portugal passou de comunicação presencial, à utilização de TELEX, à utilização de FAX culminando com a utilização de e-mail’s. Contudo em muitas áreas o e-mail ainda não é tido como uma forma de comunicação formal… E em Angola?? Basicamente o FAX não é utilizado… O e-mail é a forma de comunicação por excelência (quando todos os interlocutores têm acesso a internet, entenda-se) e tratam-se muitos asuntos presencialmente…

Julgo que este é um exemplo perceptível da velocidade que os processos tomam neste país de forma a obter o tão desejado nivelamento tecnológico com os restantes países.

Para além da vertente tecnológica existe ainda a vertente social… E aí, apesar de não ser à velocidade desejável, começa-se a perceber a actuação das autoridades nesse sentido… A limpeza diária das ruas, o incutir de respeito e civismo nas autoridades, as campanhas de informação relativamente a algumas doenças no país (poleomielite e o VIH) e muitas outras coisas que se sentem a mudar no dia-a-dia…
Sem dúvida qu os slogans são mais que isso… “Pela nova Angola”, “Angola está a mudar”, “Por uma Angola melhor”, “Todos juntos para melhorar a nossa Angola”, parecem frases feitas ou brilhantes tiradas de um publicitário eficaz e se calhar são, mas as mudanças vão-se notando…










E finalmente as perspectivas futuras…
Essas são mais complicadas porque se temos sempre grande dificuldade em antecipar o que será o futuro aqui, em Angola, essa dificuldade cresce exponencialmente.

Existem uma série de aspectos que contribuem para essa dificuldade. Alguns conseguimos controlar mas outros são, de todo, impossíveis de antever…

Um dos factores que, diria, preocupa mais todos os expatriados a viver em Angola é a establidade política mas, para além desse, existe ainda outro que se prende com a “vontade”/possibilidade do governo manter o seu nível de investimento. Tal como já disse em alguns dos textos anteriores em Angola, basicamente, falta fazer tudo mas…

Mas para isso será necessário que o Estado disponibilize as verbas necessárias para que tudo o que falta seja feito… À primeira vista isso não parece uma tarefa muito complicada mas… Uma vez que no último ano, “à sombra da crise financeira mundial”, houve um grande decréscimo de pagamentos (o que originou uma grande crise junto das empresas que continuaram a sua laboração sem que recebessem as verbas acordadas) o receio da continuação/agudização deste problema é grande…

E é por tudo isto que as perspectivas de futuro não são brancas nem pretas… Teremos que esperar para ver o que o futuro nos reserva porque, e essa é uma triste verdade, o comum dos mortais também não consegue antecipar qual será o futuro de outras economias mundiais que, pensávamos, eram sólidas…

Por tudo isso resta-me apenas dizer que, a nível pessoal, as perspectivas futuras são bem mais positivas porque, afinal de contas, estarei com a minha metade.
;)

Para terminar deixo uma música, com uma mensagem forte, que descobri recentemente…
Música: Angola
Interprete: Matias Damásio
Vídeo elaborado por: LKaAngolana
Link: http://www.youtube.com/watch?v=1o90_caqiV8

 

O maior desejo?
Que a estabilidade do país se mantenha de forma a que todos os projectos consolidem e potenciem um maior desenvolvimento do país… Porque este é um país com enorme potencial se, obviamente, os homens assim o quiserem…

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

22 de Agosto – Já existem actividades de lazer!!!

Quando o repórter me disse que um colega estava a organizar uma espécie de torneio de paintball e que nos tinha convidado, a minha primeira resposta foi: “Uhmmm, não estou muito para aí virada, mas vamos, tu participas e eu fico a ver”. Deves deves... era o que eu pensava!

Até ao dia propriamente dito, a organização foi sendo progressivamente alterada, até se transformar num Domingo radical, com programa completo, para colaboradores da empresa do repórter, familiares e afins.

Para ser sincera, na véspera começou-me logo a doer o corpo quando me apercebi que nos tínhamos que levantar às 7h00 da matina, mal sabia o que estava para vir!!!

Depois de ultrapassarmos 2 pontos de encontro que permitiriam reduzir a quantidade de carros a deslocarem-se para o local que nos estava a deixar na expectativa, lá se iniciou a excursão com destino à Quinta do Destino :) perdoando desde já a redundância!

A Quinta do Destino é uma espécie de resort que fica nos arredores de Luanda, com todo o tipo de serviços, desde equipamentos desportivos, local para a prática de desportos radicais, piscina, jacuzzis, espaço para conferências, salão para realização de eventos, e o alojamento é feito em bungallows de várias dimensões. Segundo nos informaram no local, foi um espaço idealizado para acolher a selecção angolana de futebol durante a realização do CAN 2010, contudo a sua construção não foi concluída a tempo de servir esse propósito. Agora é um espaço utilizado não só para alojamento, mas para a realização de eventos, jantares temáticos, actividades radicais, entre outros.

À chegada fomos recebidos por colaboradores da empresa que iria coordenar o dia, a Sector 7, dedicada à realização de actividades radicais, que nos encaminharam para a primeira etapa: pequeno-almoço!!! Segundo os mesmos, iríamos precisar de reforço :)

Ultrapassada a primeira etapa com distinção, ou não fôssemos todos bons garfos, passámos à segunda: apresentação de todos os intervenientes.

Foram momentos engraçados porque a coordenadora das actividades inicialmente pediu que nos apresentássemos e posteriormente, numa espécie de actividade de team building, cada um de nós tinha que apresentar quem estava ao seu lado, conforme a memória deixasse! No final tínhamos um grupo composto por angolanos, cubanos e portugueses, das mais variadas cidades, dos mais variados sectores de actividade e, no caso dos não nacionais, com distintos períodos de permanência em Angola, o ponto que nos unia a todos.

Seguiu-se a separação em equipas, em que os repórteres ficaram afastados mas sem terem que competir entre eles. Vá lá... safámo-nos!

Depois de alguns jogos para estabelecer empatia (foto seguinte) entre os membros da mesma equipa, ao mesmo tempo que faziam estalar gargalhadas sonoras, deu-se mais uma divisão, em que a minha equipa era uma das primeiras a jogar paintball. Assim que manifestei a minha vontade em não participar, foi-me devolvido um comentário desafiante por parte da coordenadora, seguindo-se um conjunto de olhares interrogativos por parte dos meus colegas, que no seu conjunto questionavam a minha coragem para enfrentar o jogo... pronto... que se lixe... se amanhã não me mexer, paciência...


E cá está o resultado! Muita garra para enfrentar os adversários :)

A Equipa da Co-Repórter (Equipa Serra da Chela):


Depois de muitos tiros disparados, de terminar o gás da pistola obrigando-me à rendição, e de dois abrasões nas costas provocados pelos disparos da equipa contrária, e muita transpiração, era tempo de ceder o campo à equipa do repórter e respectiva equipa adversária, e passar à escalada e slide!

E agora a Equipa do Repórter (que se revelou muito bem táctica e estrategicamente e, nos 5 jogos feitos, aniquilou toda a equipa adversária…)


À nossa espera estava uma estrutura metálica, a qual era necessário escalar por uma parede de corda, no cimo da qual poderíamos então disfrutar do prémio final, deslizando até ao solo!

A Co-repórter a subir a torre


E o Repórter a preparar-se para iniciar a descida:


A maioria conseguiu, outros nem por isso, quanto a mim, teria voltado a repetir não fosse a hora de almoço ter chegado. Quem diria que a manhã passaria tão rápido?!

Sendo buffet, tivemos a oportunidade de experimentar uma série de pratos típicos nacionais, muitos já conhecidos, outros nem tanto, e foi aí que se deu um momento insólito. Os membros da minha equipa, todos angolanos ou há muito mais tempo que eu em Angola, incitaram-me a comer uma iguaria presente, de aspecto muito duvidoso, que dá pelo nome de catatos. Ora bem... sob a máxima de que há sempre uma primeira vez para tudo e que não iria então morrer sem experimentar aquilo que insistiam ser tão bom, ainda pensei em perguntar o que era, mas ao olhar uma vez mais para eles, demovi-me de o fazer e retirei decidida uns 4 para o prato. Três ficaram no mesmo sítio onde os tinha colocado, e um deles só desceu pelo esófago porque não fui capaz de impedir o seu curso depois de o meter à boca e preferi engoli-lo. Não, definitivamente não era bom como diziam, segundo os meus parâmetros. Venha Feijão Óleo de Palma, isso sim!!!

Para terminar a tarde tivemos ainda direito a duas demonstrações de danças Angolanas:



Mais tarde vim a saber que a opinião sobre Catatos não era generalizada e entre os meus colegas de trabalho, todos angolanos, ninguém comia, sendo que dois deles nem sequer se arriscavam a provar. Acabaram por ser eles a explicar-me o que eram. Afinal de contas já tinha comido, portanto... Catatos são larvas que andam no tronco de algumas árvores, são colhidos e cozinhados. No fundo não me pareceu assim tão estranho comer Catatos, sendo eu uma apreciadora feroz de Caracóis, sobretudo os da minha mãezinha :)

E pronto, assim se passou um belo Domingo, em boa companhia e de forma diferente do habitual. Claro que com o aproximar da noite o corpo foi começando a dar sinais, os músculos doíam, os braços, pernas e costas doridos, e muito, muito cansaço! Foi chegar a casa, dar um beijinho à famelga via Skype e dormir que o despertador de manhã chamaria cedinho.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

19 de Agosto – Um primeiro [longo] percurso a pé…

Este é um dia diferente…

Apesar de estar há praticamente um ano na Terra Avermelhada hoje foi o primeiro dia em que fiz um longo percurso a pé…

Este parcerá um post absurdo para a maioria das pessoas que o poderá vir a ler mas, para quem ler os primeiros textos do blog, poderá perceber o significado deste “acontecimento” que, felizmente, para a maioria das pessoas que vivem na Europa ou nas Américas faz parte do seu quotidiano…

E porquê este percurso??? Muito simples…

Tinhamos uma reunião marcada com uma instituição pública e o trânsito estava simplesmente caótico. Houve carro parados em frente ao escritório durante mais de 30 minutos e, por isso mesmo, decidimos ir a pé. Um dos meus colegas já o tinha feito e não tinha tido qualquer problema portanto lá fomos…

Um percurso de cerca de 30 minutos a pé (para quem conhece desde a Sagrada Família até perto da Sede do INEA) que eu fiz com algum receio mas em que, felizmente, nada aconteceu.

Regressei sozinho pois o meu colega teria que lá ficar e, não fosse a inclinada Rua Manuel Caldeira (que desce, ou sobe, do Largo Lenine para o Largo Amilcar Cabral), teria sido uma boa viagem…

Será este um sinal que Angola estará, de facto, a mudar?? Ou terei tido sorte?
Não sei… Mas é bom usufruir destes momentos ímpares que, no fundo, são “pequenas vitórias”…

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

16 de Agosto – Trazer um bocadinho de futilidade ao blog

Bom, já cá faltava uma mulher para trazer um bocadinho de futilidade a este blog :) Mas não só…

A realidade é que se antes de vir para Luanda tivesse encontrado uma informação semelhante à que vou escrever, alguns dos meus receios ter-se-iam dissipado. Por tanto, para além de fútil, espero que este post seja igualmente útil.

Pois é, se me perguntassem quais eram as coisas que mais receava, para além das comuns que toda a espécie masculina ou feminina receia, eu diria, enquanto mulher, que era o facto de não encontrar um local onde arranjar as unhas, sobrancelhas, fazer depilação, e afins. Tantas vezes ouvimos coisas negativas que acabamos por interiorizar e criar ideias na nossa cabeça. Lembro-me por exemplo de ouvir “ah, não, isso só nos hotéis, nem pensar fazer noutro sítio qualquer”.

Realmente para mim, e para tudo o que respeita a Angola, só tendo cá estado é que se poderá ousar falar. Muitas pessoas dizem e chegam mesmo a inventar coisas em função daquilo que alguém lhes disse, e defendem isso como uma verdade máxima salvaguardando-se no facto desse alguém já ter cá estado.

Enfim…

A verdade é que dei por mim a dirigir-me a primeira vez a um dos hotéis de referência de Luanda à procura de um cabeleireiro ou centro de estética. Confesso que não fiquei nada bem impressionada…

Bom, antes de mais queria deixar bem claro que não sou pessoa de ir todas as semanas ao cabeleireiro, na realidade, fujo das tesouras como o diabo da cruz, e sou muito preguiçosa para muitas coisas relacionadas com a estética. Mas há uma coisa que não dispenso, ter as minhas unhas arranjadas, quer das mãos, quer dos pés. Só eu sei as saudades que tenho das visitas quinzenais à minha querida Márcia, manicure dos últimos não sei quantos anos…

Ora bem, esse ritual teria que continuar, quer em Luanda, quer em qualquer outro local do mundo. E não demorou muito até descobrir o sítio ideal. Recomendado por umas colegas de trabalho e depois de algum esforço, lá consegui encontrar o Bamboo Imperial que afinal ficava duas ruas acima da minha casa… pormenores…
E não é que aquilo é um sonho? Cabeleireiro, gabinete de estética, e SPA? Pode uma mulher pedir mais?

Mal se entra apercebemo-nos de um ambiente relaxante, potenciado pelos óleos e incensos que estão por todas as partes a perfumar o ar. Os empregados são amorosos e atenciosos, sempre com um sorriso nos lábios. Ok… já sei que poderão perguntar, os preços? Bom, como tudo em Luanda, não se poderia esperar que fosse barato, mas acreditem que comparativamente a outros sítios que entrei, os preços são bem mais acessíveis, e a qualidade de longe melhor!

Confesso que ainda não arrisquei o cabeleireiro, não porque não acredite na qualidade, mas porque como disse sou uma medricas com as tesouras… acho que vou primeiro optar por uma hidratação profunda das muitas que estão ao nosso dispor, e depois sim, lá cortarei uhmmmm deixa ver… metade de um dedo? :)

Espero não ser multada por fazer publicidade e desde já vos garanto que ninguém me encomendou o sermão, pelo que a mesma é totalmente gratuita!! Para ajudar só mais um bocadinho, a localização! Que isto de encontrar coisas em Luanda é difícil. Ah e tal, vais até à rua do BiG One, ah e tal, é mesmo ao pé do edifício da Cidade Limpa, bom… estão a ver a dificuldade. Aqui os nomes de ruas servem de muito pouco e as pessoas guiam-se por edifícios, lojas, hotéis, agências de bancos, que constituem pontos de referência, para indicar caminhos ou locais. Ora para quem está praticamente acabadinho de chegar e andou a pesquisar no Google Earth, só tem nomes de ruas como referência… conclusão, torna-se muito difícil mesmo!

Portanto vou procurar dar as indicações da melhor maneira possível, um misto entre a minha maneira e a maneira angolana, à qual já me vou habituando.

Quem sobe a avenida da Maianga em direcção ao hotel Alvalade, entenda-se, ex Av. António Barroso ou actual Av. Marien N’Gouabi, passa a Martal, e logo depois de passar o hotel Palanca, é a segunda à direita. Uns 100 metros do lado direito está o paraíso J Não se deixem enganar pelo snack-bar com o mesmo nome, que serve uns snacks pouco calóricos e uns sumos fabulosos. Subam a escada que a porta é logo ao cimo e aproveitem!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

14 e 15 de Agosto – Um fim-de-semana diferente…

Muitas vezes se diz que não existe oferta cultural em Angola, mais precisamente em Luanda. Bom, é certo que a oferta existente não é de todo semelhante à de muitas capitais mundiais, mas daí a dizer que não existe oferta cultural, vai uma grande distância! Basta procurar um bocadinho, comprar O PAIS às sextas ou pesquisar nuns quantos sites ou blog’s e encontrar o que fazer!

Sob essa perspectiva e de forma a optar por um fim-de-semana mais cultural, aproveitámos a tarde de sábado para ver a exposição que estava patente no Museu Nacional de História Natural!

Já há algum tempo que queríamos ir mas durante a semana é sempre impossível. Como tal confirmámos que estava aberta ao sábado e quando chegámos à entrada surpreendeu-nos que cumprissem com as regras internacionais dos museus, ou seja, abertos todos os dias com excepção da segunda-feira!. Surpreendeu-nos porquê? Não por estarmos em Angola… Mas porque outros organismos que estão neste país para promover a cultura, não o fazem totalmente. Veja-se por exemplo o caso do Centro Cultural Português que abre apenas durante os dias de semana das 9.00 às 17.00 horas, se não estamos em erro… Inviabilizando quase por completo uma visita…

Mas mais surpreendidos ainda ficámos com o preço que pagámos para ver a exposição. 100 Akz cada um…!!! Mas podíamos acreditar, tendo em consideração todo o restante nível de preços praticados no país! Sendo necessário menos de 1€ para ver uma exposição não há mesmo razões para ficar por casa!!!

A exposição era fotográfica, intitulada HEREROS, uma obra de Sérgio Guerra, um reconhecido fotógrafo Brasileiro que passou cerca de dois meses nas províncias do Namibe, Huíla e Cunene, a realizar uma recolha documental com vários subgrupos étnicos dos Hereros aí estabelecidos. O objectivo que deu origem à exposição era fazer um levantamento fotográfico e recolher um conjunto de testemunhos de uma das mais ancestrais etnias que habita não só o Sul de Angola mas também regiões da Namíbia e do Botswana.

O trabalho realizado por Sérgio Guerra foi também convertido num livro, Hereros – Angola, que pode ser adquirido em Portugal e Angola bem como noutros países, editado em Inglês – Português.

A exposição para alem de ter estado patente em Luanda, de 27 de Julho a 26 de Agosto, esteve também em Lisboa, mais precisamente na Perve Galeria, em Alfama, entre os dias 19 de Agosto e 18 de Setembro.


Mas afinal quem são os Hereros????

Os Hereros são um povo proveniente da migração dos bantos da região oriental da África, que se instalou na Namíbia entre os séculos XVII e XVIII, e que desde esse período atravessou décadas de conflito por forma a manter os seus traços culturais que o caracterizam. Actualmente estima-se que os Hereros totalizem cerca 240 mil pessoas, que se distribuem pela Namíbia, Angola e Botswana.

O Ovaherero engloba vários subgrupos e, embora durante o período colonial os europeus tentassem defini-los como grupos étnicos distintos, consideram-se todos Ovaherero. Apesar de divididos em diversos subgrupos, possuem o mesmo idioma herero, além do português em Angola, inglês no Botsuana e inglês e africâner na Namíbia.

Os traços principais da cultura desse povo remontam há 3 mil anos e os seus ancestrais teriam chegado a Angola há pelo menos três séculos – lá se instalaram nas províncias do Cunene, Namibe e Huíla. Com histórico caracterizado pela resistência, opuseram-se à escravidão e outras formas de dominação.

Após a Conferência de Berlim, celebrada entre 1884 e 1885, a Alemanha invadiu o continente africano e além de outras regiões anexou a Namíbia, enviando para a África invasores que pilharam as terras e riquezas da população nativa, difundido a supremacia branca e comparando o povo herero a babuínos. Os homens eram constantemente espancados até à morte e as mulheres vítimas de estupro e escravizadas sexuais dos colonos e soldados alemães.

Como forma de responder às violações que vinham sofrendo, em 12 de Janeiro de 1904 o povo Herero resolveu resistir à investida alemã, liderados por Samuel Maharero. De acordo com os historiadores, essa guerra de libertação teve como consequência o primeiro genocídio do século do XX, e um dos capítulos mais tristes da história, em que 80% dos Hereros foram aniquilados durante um confronto com as tropas alemãs na Namíbia.

Em Angola, eles também se negaram ao domínio perante o colonizador português. Porém não se pode dizer que chegaram ao século XXI absolutamente à parte das populações urbanas que se desenvolveram no país africano a partir da instalação dos europeus. Ou seja, os Hereros de hoje fazem comércio, frequentam escolas, consomem bebidas alcoólicas e alguns trocam os seus bois por carros. No entanto, é inegável que, mesmo não tão isolados do que se habituou a chamar de “civilização”, preservam parte significativa de sua cultura.

O gado é fundamental para entender boa parte do modo de vida dos Hereros. “O boi é tudo para eles, é a sobrevivência. Do boi, tiram tudo. Tutano, leite, o óleo com o qual se banham, o excremento que usam para construir as casas onde moram. É o banco deles. E é muito interessante como descentralizam o património. Têm uma dimensão muito precisa do que necessitam para sobreviver e de como devem ser estruturadas as coisas”, explica Sérgio Guerra.

Um dos aspectos mais reveladores é, sem dúvida, a poligamia da mulher e numa sociedade patriarcal. Enquanto os maridos viajam, transportando gado, elas podem ter relações sexuais fora do casamento. E, caso engravidem, é comum que os maridos assumam os filhos.

Como já comentámos, os traços culturais principais remetem a tradições de mais de três mil anos. Por isso, nas fotografias exibidas por Sérgio Guerra, para além de muitos outros aspectos característicos deste povo, é possível ver imagens de práticas tribais, como a circuncisão infantil e o hábito de se extrair os quatro dentes incisivos permanentes.


Mulheres Muhimbas da aldeia do senhor Tchimbari Kezumo Bingue, Biquifemo, Namibe, em Angola.
Imagem: Sérgio Guerra/Divulgação


Mulher Herero
Imagem: Sérgio Guerra/Divulgação


Mulher e criança Herero
Imagem: Sérgio Guerra/Divulgação

Esta exposição não só nos permitiu disfrutar de excelentes fotografias que captaram com muita realidade a história e cultura deste povo, como nos fizeram descobrir um pouco da sua história e percurso que até então desconhecíamos!

PS: Para saberem um pouco mais sobre os Hereros, podem aproveitar a oportunidade criada por Thomas Balmes, realizador do documentário Babies. O documentário é sobre quatro bebés (sendo um deles Herero), quatro culturas, em quatro países distintos. Ponijao, Bayarjargal, Mari e Hattie vivem na Namíbia, Mongólia, Japão e Estados Unidos, respectivamente. O filme mostra cada um deles desde o nascimento aos primeiros passos. A partir de uma ideia do realizador francês Alain Chabat (“RRRrrrr!!!"," Astérix e Obélix: Missão Cleópatra"), o documentarista Thomas Balmes mostra como, no que concerne ao mais importante, as diferenças entre as culturas podem ser esbatidas e, da mesma maneira que há coisas radicalmente diferentes entre pessoas de diferentes continentes, também existe algo que não foi alterado, nem através do tempo nem pela cultura: o amor, o instinto, a necessidade de proteger e ser protegido.

Para quem está em Portugal ainda tem a oportunidade de o ver até quarta-feira, no C.C. Vasco da Gama, em Lisboa, ou no C.C. Marshopping, em Matosinhos.


No dia seguinte levantámos bem cedinho para ir visitar uma fazenda de criação de cavalos perto do Quifangondo, nos arredores de Luanda, onde reside um dos objectivos de Angola para os Jogos Olímpicos de 2016!

Graças à simpatia dos funcionários pudemos experimentar e disfrutar de uma aula de equitação, onde uns se saíram melhor que outros, mas quanto a isso não vamos falar :)

A boleia no percurso para a fazenda:


O imponente Imbondeiro à entrada da Fazenda


Os estreantes (mas quem sabe futuros praticantes)



O caminho de regresso a casa

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

08 de Agosto – Uma tarde inesperada na Ilha do Mussulo

Há lugares diferentes, dias diferentes e pessoas que marcam. Aquele lugar, aquele dia e aquelas pessoas foram tudo isso para nós.

Eles primeiro não queriam ir, porque o tempo não estava perfeito para aquele passeio, mas eu insisti e lá fomos embarcar para o Mussulo no “embarcadouro” do Museu da Escravatura. Mais tarde percebemos que devemos embarcar no que está próximo do Morro Bento, mas esse foi um conhecimento que recolhemos para a próxima vez :)

Fomos com o primeiro rapaz que nos acenou e nos chamou. O preço negoceia-se logo à entrada para o barco, mas fomos enganados ou simplesmente tontos por ter assumido que era ida e volta... A coisa começou a ficar engraçada quando o Lulu recorreu à ligação directa para pôr o barco a trabalhar... trocámos uns olhares cúmplices e um de nós em jeito de brincadeira diz “então isto pega assim, é?” como resposta só tivemos direito a um sorriso!

Lá iniciámos a travessia propriamente dita e quando nos estávamos a aproximar do ponto de paragem definido inicialmente para passar o dia, o BarSulo, o Lulu diz-nos, como se tivesse acabado de dar-se conta “ah, está fechado, têm que ir para o outro bar/restaurante”. Acenámos positivamente sem apresentar qualquer impedimento, mas ele acrescenta “ah, mas para ali são mais X Kwanzas”, quantia que agora não recordamos mas representava um aumento de 50% do preço inicial. Não tivemos outro remédio que não o aceitar, pois a pouco mais de metade da travessia e longe da costa, não estávamos propriamente em posição de negociar...

Pelo caminho umas fotos aos “nossos taxistas”:




Enfim... lá atracámos junto ao aldeamento turístico Roça das Mangueiras, um dos poucos da ilha, senão mesmo o único, e aproveitámos para recolher algumas informações e ver as instalações para uma futura estadia no Verão. Daí partimos para ver o resto da ilha, nomeadamente a Contra-costa onde a praia é extensa e maravilhosa.

Ao caminhar pela ilha pudemos observar que algumas vivendas eram do tempo colonial, sendo que algumas, a par com determinadas infra-estruturas, estavam abandonadas. Mas também havia muitas construções novas, com todos os tipos de arquitectura. Havia muitas crianças ao longo da costa que aproveitavam o que outrora tinham sido terraços de casas, ou espaços de algum centro recreativo, para jogar à bola, criando cenários perfeitos para uns quantos disparos fotográficos!

A determinada altura enveredámos pelo meio da ilha, passando pelo bairro onde residem os habitantes constantes e não apenas de fim-de-semana ou férias. É fácil perceber a diferença face aos bairros de Luanda, sobretudo devido à organização presente, mas também ao sossego.

Caminhámos imenso, talvez mais de um kilómetro por um caminho de terra completamente laranja, ou melhor, cor de tijolo, aquela cor tão típica de cá, e eu, co-reporter, senti-me nesse momento mais feliz que nunca desde o primeiro momento que pisei solo angolano, pela sensação de liberdade sentida naquele passeio tranquilo pela ilha.

Até que por fim avistámos a contra-costa propriamente dita. Kilómetros e kilómetros de areia, povoada por muitos caranguejos, palmeiras, aqui e ali estruturas de madeira com peixe a secar e aquele mar maravilhoso, sem regras, agreste e de cheiro forte! O normal para a altura do ano em que estamos, sem nos apresentar qualquer convite a banhos :)

Ficámos por alguns momentos a aproveitar aquele sossego, entre dedos de conversa e, embora a vontade não fosse muita, era hora de regressar que a fome em breve iria apertar.

Já ao chegarmos pertinho do aldeamento o nosso dia estava prestes a mudar e a tornar-se ainda melhor.

No dia anterior eu, co-reporter, tinha chateado o repórter e o Marco porque não pararam o carro para eu pegar numa bebé ao colo e neste dia fiquei estarrecida quando reparo num grupo de bebés e algumas crianças que brincavam junto a uma casa. Com algum receio de ser mal interpretada, fui-me aproximando de forma a poder estar mais perto daqueles meninos e meninas. Vi uma senhora aproximar-se e recordo que para além dos meus olhos interrogativos ainda acrescentei um olá sorridente. A senhora retribuiu e explicou que a menina mais pequenina era a neta e os outros meninos eram vizinhos ali da ilha e que vieram para ali brincar. Estive um bocadinho a falar com ela e a brincar com os meninos, até que chamei o repórter e o Marco para os apresentar.

Sem espaço para grandes hesitações, convidou-nos para ficarmos com a família para almoçar. Claro que ficámos um bocadinho sem jeito, mas nisto chegou o marido a perguntar o que se passava. A senhora não nos deixou sequer responder e disse “estou a convidá-los para ficarem connosco para almoçarem e estão a dizer que não”. Como resposta o marido colocou um braço em torno dos meus ombros e disse “quanto a vocês não sei, mas esta menina vem comigo”.

E pronto... foi um dos melhores almoços e tardes que tivemos. Estávamos longíssimo mas sentimo-nos como se estivéssemos em casa, com os nossos pais, com as nossas famílias, pela forma como a Dª Zinha e o Sr. Né nos trataram e nos fizeram sentir. É impressionante como quando estamos bem o tempo passa realmente a correr, e aquela tarde parecia voar... Entre as brincadeiras com os netos e com os restantes meninos, as conversas familiares, os temas habituais sobre a evolução do pais e como tinham eles próprio sobrevivido a tudo, estava na hora de regressar a Luanda...

Depois da saborosa refeição houve ainda espaço a uns deliciosos momentos partilhados com as crianças que, inadvertidamente, nos proporcionaram aquela tarde divinal…. Como forma de agradecimento aqui ficam algumas fotos desses momentos…







A preferida do repórter...


Na mala levávamos fotografias, recordações, novos amigos, um local para regressar mas, mais que tudo o resto, um sorriso de felicidade por termos vivido aqueles momentos.

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