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domingo, 15 de novembro de 2009

1 de Novembro – Lobito / Benguela

Pelo segunda noite consecutiva tenho o prazer de estar sentado num cómodo cadeirão de verga com o som das ondas a embalar o registo de mais um dia de experiências…

Falta aqui apenas a minha metade para ficarmos tranquilos a ouvir este barulho de fundo e bebermos um chá relaxante.

Bom…

O dia começou pelas 7.30 da manhã. Ao acordar o aspecto era este:



Ficámos na praia até perto das 13horas (o que me valeu uma cor um pouco avermelhada na pele) e partimos rumo a Benguela.




Edifícios e ruas do Lobito


A via principal para sair do Lobito (ainda em fase de conclusão)

Saindo do Lobito, em direcção a Benguela, ao lado esquerdo, vimos um Musseque com uma enorme extensão. Num percurso de 3/4 km fomos “ao lado” do Musseque. Por aí se pode imaginar a dimensão e complexidade dos “subúrbios”. Mais uma vez a grande diferença entre este e os Musseques de Luanda… As “casas” são mais afastadas, existe organização e limpeza…

Não quer dizer que seja bom mas, pelo menos, é melhor do que em Luanda…

Continuando a nossa viagem a famosa Ponte da Katumbela. Um projecto do engº Armando Rito. Esta foi a primeira grande obra inaugurada desde que cheguei. Na inauguração toda a comitiva fez a sua travessia a pé e a festa foi grande. Pela relevância da obra e por representar a primeira inauguração desde que cá estou aqui fica uma imagem distante.


Ponte da Catumbela

Em Janeiro Angola vai organizar o CAN 2010. Estão a ser construídos 4 novos estádios. Digo “estão a ser” porque apesar de já só faltarem 57 dias ainda há muito a fazer… Há até pessoas que dizem que o CAN se vai realizar na África do Sul porque estes estádios não vão estar prontos…

Veremos…

Aqui fica o de Benguela….



Mesmo à entrada de Benguela um edifico lindíssimo que comprova a nossa passagem por Angola…


Edifício do Ministério das Finanças

Aqui estão bons exemplos do que referia no dia 18 de Outubro…
Aquelas que são hoje consideradas as grandes cidades possuem edifícios do tempo colonial. Durante todo o percurso, no Lobito e agora em Benguela percebe-se que as construções que existem hoje foram as que nós deixamos.

Os espaços urbanos não sofreram grandes incrementos, em parte por causa da guerra, em parte pela falta de dinheiro, em parte por causa da “cultura”, e o que ainda hoje se vê são edifícios que, basicamente, não sofreram intervenções desde 75.

Com a estabilidade política e com o aumento do poder de compra da sociedade em geral, começam agora a ver-se diversas intervenções e novas construções.

Fico também pasmado com a “complexidade” das construções existentes cá… Nunca imaginei que antes de 1975 Portugal construísse este tipo de edifícios nas suas colónias… Talvez preconceito é verdade, mas pensei que, à excepção de Luanda, viria encontrar cidades de moradias. Mais um mito desfeito…

O almoço foi no “Porta-Aviões”. Um restaurante com esplanada mesmo em frente ao mar. Durante o imenso tempo de espera houve fui encostar-me ao muro que separava a esplanada da praia. Ao chegar o espanto…

Nunca tinha visto uma praia assim…


Praia do restaurante Porta-Aviões

Fomos ainda à praia da Calotinha mas a máquina fotográfica ficou sem bateria… De qualquer forma fica o registo mental… Uma praia com bastante lixo que não atraiu minimamente. Eventualmente poderia ir-se para uma zona mais interessante andando um pouco pelo areal mas preferimos ficar a observar linha de costa e regressámos ao Lobito.

No regresso ao Lobito a estupefacção pelo facto do Musseque, que já referi como sendo nos “subúrbios” do Lobito, estar totalmente iluminado. É verdade… O Musseque possuía iluminação pública, em grande quantidade, criando até a ilusão de estarmos a passar numa cidade…

Quem diria…

Ao jantar realço a excelente e farta Muquequa de Peixe (com uma grande quantidade de marisco) que exigiu de mim e do Ludgero um empenho adicional.


31 de Outubro – 1º dia em África

Lapso no título??? Não… É a verdade…

Hoje fiz a minha primeira viagem por Angola. Quatro dias depois de chegar acedi ao desafio do Ludgero e da Andreia de virmos passar este fim-de-semana prolongado (porque na segunda-feira é feriado) ao Lobito/Benguela.

A diferença entre as habitações (do 1º e do 2º plano)…
A viagem começou às 6.30 e chegámos ao Lobito às 13 horas. Pelo meio uma curta paragem para descansar um pouco (Porto Amboim) outra para desfrutar de uma excelente paisagem (Sumbe) e outra de cerca de 45 minutos para abastecer o carro com combustível (não se consegue perceber??? Pois não…).

O percurso inicial é o da praia de Caboledo pelo que, uma vez que já lá fui duas vezes, não constituiu particular novidade… Obviamente que cada vez que passo detecto coisas novas mas a minha excitação prendia-se, essencialmente, com o resto do percurso… Com o primeiro contacto com a Angola original…

Aproveitando a gentileza de um colega, que me emprestou a máquina fotográfica, aproveito para publicar algumas fotos à saída de Luanda:

Toda a extensão de um dos Musseques


Um exemplo de “algo” à saída de Luanda.


A sucata à beira da estrada. Ao fundo é o Mussulo…


A abrangência do Glorioso… O país pára quando o Benfica joga…


A margem Norte do Rio Kwanza. 50 metros adiante o inicio da ponte. Certamente que este seria um ponto estratégico para protecção durante a guerra

A nível de vegetação o trajecto é particularmente variado. Após o percurso até CaboLedo, por exemplo, não existem Embondeiros. Há zonas com vegetação muito verde e serrada (típicas florestas africanas) e outras sem vegetação. Zonas tão planas que recordam as paisagens Alentejanas e outras mais montanhosas.



Um dos tipos de paisagem/vegetação
Diferentes troços de estrada (cada um com a sua qualidade, seja de pavimento, traçado, visibilidade ou segurança) para percorrer os cerca de 530 km que separam Luanda do Lobito.

A primeira percepção é que, de facto, até agora tenho estado em Angola e a cada km que passava estava a entrar em África. Digo isto porque em Portugal fala-se de grandes investimentos em Angola e da melhoria de condições de vida e isso, na opinião de quem chegou à pouco tempo, resume-se a Luanda pelo que, Luanda é a Angola que ouvimos e todo o resto do país é a África que pensamos conhecer… Obviamente que existem múltiplos e grandes investimentos por todo o país mas muitos são de infra-estruturas essenciais (por exemplo eixos viários) mas que, para já, em pouco melhoram a qualidade de vida diária da população local.

Começam a surgir as primeiras habitações que, até agora, faziam parte apenas do meu imaginário. Na realidade existem semelhantes (no percurso até Caboledo) que funcionam como “restaurantes” mas com a função de habitação, esta era o meu primeiro contacto…


Uma vista global de uma das aldeias que passámos antes de Porto Amboim

À chegada a Porto Amboim o “musseque”. Coloco entre aspas porque apesar de se tratar duma zona em que existe um amontoado de casas (a que em alguns casos poderíamos chamar casebres ou algo do género) o aspecto é totalmente diferente dos que existem em Luanda… Aqui há espaço entre cada habitação (como que um lote de terreno invisível) não existe lixo e, apesar do amontoado, tudo parece organizado.


Chegada a Porto Amboim



Ao contrário do que pensava, Porto Amboim, não é grande. É, na prática, um local que a que, de acordo com os parâmetros locais, já se pode denominar de cidade mas sem grande beleza. Em Portugal seria uma aldeia mas uma vez que numa extensão de umas dezenas de km não existe nada à volta este é, sem qualquer dúvida, um local desenvolvido..

A caminho do Sumbe novamente a mesma realidade. Casas humildes e pouco ordenamento mas, mais uma vez, dignidade e asseio


A diferença entre as habitações (do 1º e do 2º plano)…





As habitações locais.

A qualidade das fotografias anteriores deve-se à velocidade (ou à sua ausência) com que viajávamos nesta altura… Pelas fotografias consegue perceber-se que é uma estrada com bastante inclinação e, à nossa frente




Sem outros veículos a taparem a percepção, a perspectiva real das condições do transporte (fotografia tirada numa fase mais adiantada no percurso)

Depois de sair do Sumbe uma lindíssima paisagem… Só agora percebo que estas fotografias em nada dignificam o local porque não transmitem a sua beleza mas… São as que tirei…





Para além da grande beleza natural dois factores que tornam este local ainda mais agradável. Um mercado e um grupo de pessoas a lavar roupa no rio… Ambos os momentos são bem elucidativos da vivência Africana …











Sem dúvida as minhas preferidas do dia de hoje…



Depois de mais alguns km percorridos um posto de combustível… O combustível que tínhamos deveria ser suficiente para chegarmos ao Lobito mas preferíamos não arriscar. Trata-se de um fim-de-semana longo (porque na segunda-feira é feriado) e, como tal, grande parte das pessoas que estão em Luanda rumam a sul. Como resultado muitos dos postos de combustível fecham porque os tanques ficam vazios…

Precisamente por isso uma fila, que se deveria traduzir em 30 minutos de espera, à nossa frente. Depois de algum tempo na fila um dos funcionários veio dizer-nos (a nós e a outros cinco carros que estavam na fila) que para gasóleo era noutra bomba atrás do edifício… E lá fomos nós…




A primeira fila onde estivemos e a que formámos posteriormente…

A chegada ao Lobito…

Depois de tanta variedade que vimos nas habitações, a chegada ao Lobito, revela-se normal… Um imenso Musseque. Mantinha as características do que vimos na viagem (espaço e limpeza) e, por isso mesmo, apesar de se tratar de um Musseque demarcava-se claramente dos que estão em torno de Luanda…
Eu que imaginava o Lobito como uma cidade do tempo colonial com uma arquitectura portuguesa, com moradias e prédios (mesmo que degradados ou pouco conservados) começava a ficar desiludido.

Contudo, depois de cerca de 15 minutos a atravessar a zona, que depois vim a perceber tratar-se de periferia, a chegada a um sítio familiar. Não porque alguma vez lá estivesse estado mas porque a arquitectura me era familiar. Os traços gerais eram nitidamente portugueses.

Adiante, andando pela Avenida principal da restinga, o espanto e uma exclamação “poderíamos estar em muitas cidades portuguesas neste momento!!” e era verdade… A avaliar pela a larga avenida pelos prédios e pelas moradias aquele local correspondia, na totalidade, às características das cidades portuguesas…

Grandes diferenças em relação a Luanda? Sem dúvida… As casas não têm grades em todas as janelas, existiam grandes obras porque quase todos os passeios da cidade estavam a ser executados/recuperados e, em muitos locais, estavam a ser colocados os postes para a iluminação pública.
Depois de um almoço agradável a ida para o hotel. Já durante o almoço foi possível perceber algumas grandes diferenças entre Luanda e Lobito. As pessoas pareciam mais simpáticas e educadas, mais soltas e alegres e não se notava nenhuma tensão devido a receio com assaltos.
Depois do almoço? A cereja no topo do bolo… O Hotel…

Um hotel de charme. Ao que consta feito pelos Britânicos, ainda durante o período colonial, aquando da construção dos caminhos-de-ferro de Benguela. Esta é uma informação que, com muita curiosidade, irei investigar. Deixarei essas pesquisas para quando não tiver situações para relatar…
Aqui ficam algumas imagens do hotel…








Um local a regressar mas, da próxima vez, com a minha metade.

Benguela, até amanhã.

18 de Outubro – O Balanço dos 2 primeiros meses

Bom… Felizmente o balanço dos dois primeiros meses continua a ser positivo. A integração e adaptação está a revelar-se mais fácil do que pensei à partida.

Claro que este sentimento de adaptação integral é interrompido pela ausência da minha metade. Tudo teria um prazer diferente se fosse partilhado em conjunto mas em breve essa situação resolver-se-á. De qualquer forma estou quase certo que os nossos objectivos se vão cumprir. Será apenas uma questão de tempo…

A distância tem sido vencida com alguma facilidade com recurso às novas tecnologias. Apesar das dificuldades no sinal de internet tem sido possível um contacto regular.

Tirando os 8.000 km estamos quase juntos… ehehhheheh Um beijinho para ti…

Mas agora, e por isso escrevo este texto hoje e não no dia em que efectivamente passam 2 meses da minha chegada, leio um texto que demonstra a enorme curiosidade e expectativa que os Portugueses têm em relação a esta terra que, quando a mim, revela aquilo que designo de “Mística Africana”… Para além disso, revela ainda um sentimento que começo a perceber, felizmente ainda sem estar “assolado” com qualquer sentimento nostálgico. Um sentimento que temos ao entrar em contacto com a cultura do nosso país porque, estando longe dele durante algum tempo, há pequenas formas de ligação que nos fazem quase sentir em casa.

Identifico totalmente o “sentimento de proximidade”, dos Portugueses em relação a Angola porque foi o que senti ao chegar. Salvo as devidas, e enormes, diferenças a integração torna-se mais fácil devido à “proximidade cultural” que existe em todos os locais deste país.

Apesar de ter passado pela experiência, ao ler este texto percebi aquela “Mística Africana” que tanto se sente quando se fala com pessoas que tiveram um passado ligado a África… Algo que nunca tinha percebido. Não sinto, pelo menos para já, essa mesma mística mas começo a perceber as descrições e as emoções de quem as viveu noutra época…

O que leio?

Um livro de Gonçalo Cadilhe de título “África Acima”. Não me recordo se já fiz ou não uma breve referência à minha leitura desse livro mas, porque certamente nunca abordei o seu conteúdo, digo agora que se trata da compilação de textos escritos semanalmente para o Expresso. Esses textos relatam a viagem com partida no Cabo da Boa Esperança em direcção ao Estreito de Gibraltar, África acima bem se vê, tendo como grande objectivo (para além do facto de partir e chegar de saúde) fazer o percurso sentindo a vivência local e, para isso, escolheu fazer a viagem a pé.

Qual é o texto?

“Mas o Lubango será ara mim uma viagem no tempo, e a primeira etapa dessa viagem é a adolescência. Não a que vivi quando era a minha altura de a viver, mas a que estou a viver agora – porque me passa o sono, e a energia alegre substitui o cansaço quando chego ao Lugbngo. Uma energia adolescente.

Apetece-me devorar o centro desta cidade. Caminhar por todas as calçadas portuguesas, tomar um café em todos os cafés que apresentam o triângulo Delta pendurado por cima da porta, comprar carcaças e papo-secos em todas as mercearias e minimercados que se chamem “Tio Patinhas”, “Silva & Silva”, “Elite”, “Benfica”, pedir o prato do dia em qualquer tasca que proponha “prego no prato” e “bacalhau com todos”.

Estas banalidades que me estão a emocionar têm que ser postas em perspectiva: ando a viajar há várias semanas por África, e de repente chego a casa sem sair de África. “Vá para fora cá dentro” podia ser o slogan desta cidade se ela se quisesse promover turisticamente em Portugal..

A segunda etapa da viagem no tempo é a infância – a minha. Desta vez, regresso efectivamente aos anos da escola primária quando vejo a fachada das escolas primárias da antiga cidade de Sá da Bandeira. E as outras fachadas: o hospital, o grande hotel, o prédio da cooperativa, o Palácio de Justiça … São as fachadas que vigoravam nas cidades portuguesas da minha infância, e o Lubango é uma cidade ancorada em 1975 …”

De facto, neste momento, julgo que Angola é exactamente o Portugal de 1975. Alias, pelo que vou vendo e ouvindo, nessa altura Angola estaria muito mais desenvolvida em diversos aspectos e, quem cá vivia, tinha uma qualidade de vida bem superior…

Em breve irei fazer uma viagem longa e conhecerei outros locais. Confesso que estou bastante curioso para perceber qual ainda é o impacto dos Portugueses nesta terra. Penso que muito mas terei oportunidade de confirmar…

domingo, 8 de novembro de 2009

18 de Outubro – Barra do Dande

Mais um novo local...

Depois de um fim-de-semana (quase) de repouso absoluto hoje fui conhecer uma nova praia. Mas comecemos pelo dia de ontem...

De manhã (até cerca das 14.30h) tivemos uma reunião geral no nosso estaleiro. Desde a Direcção geral da empresa até aos encarregados. O objectivo era fazer um brainstorming para recolher opiniões sobre coisas que, na opinião de cada um, pudessem ser melhoradas (onde se incluem desde as condições sociais até aos procedimentos da empresa).

Pelas 15 horas cheguei a casa e deitei-me, queria eu, um bocadinho... Na realidade acordei por volta das 20 horas.

Depois de jantar e de namorar até perto das 23 horas deitei-me e acordei pelas 6.30 da manhã a pensar que já tinha passado a hora que tinha combinado com o Ludgero e com a Andreia (+- 8 horas).

Acho que desde a minha 2ª ou 3ª semana que não acordava tanto tempo antes do que era necessário...

Voltando ao dia de hoje...
Conheci uma nova zona da cidade... A zona das refinarias. É, provavelmente, a zona mais feia de toda a cidade. Para além de tudo aquilo que já referi (estradas esburacadas etc etc etc) nesta zona existem muitos camiões (a grande maioria também em muito mau estado), algumas das paredes dos edifícios contíguos à estrada estão bastante degradadas, existe imenso lixo na rua... Creio que é mesmo a zona mais feia da cidade....

Passando essa zona algo incrível... Um Musseque (bairro de lata e não um local como "define" a Wikipedia - Musseques is small town in Angola that is also a suburb of the capital Luanda) que se desenvolvia a vários níveis em que os taludes (ou ribanceiras para ser mais genérico) estavam cobertos de lixo... Cobertos no seu sentido literal... O lixo assumia a cobertura (não vegetal obviamente) da terra. Imagine-se a terra avermelhada totalmente coberta de lixo de diversos tipos, tons, cores e texturas. Não fosse lixo e até era uma paisagem muito interessante...

As fotografias terão que ficar para mais tarde porque a pessoa que eu julgava que me traria a máquina ainda aguarda a assinatura de um contrato entre as empresas portanto, desconfio, antes de Dezembro não conseguirei ter cá a minha máquina fotográfica...

Um pouco mais à frente algo que ainda não tinha visto. Junto à estrada muitos alguidares e outros recipientes (também eles a fazerem um belo efeito cromático). Explicou-me quem sabe que são as pessoas do Musseque que colocam ali os recipientes para serem enchidos por um camião cisterna que passa e, a troco de algum (obviamente que pouco) dinheiro, levam a água para algumas pessoas que podem pagar esse "pequeno luxo" (o de ter alguém que lhe traga água pelo musseque acima...).

Todo o resto do percurso inicial (ainda no perímetro urbano) bom... Apesar de ser um perímetro urbano percebia-se, perfeitamente, que já se estava a sair da cidade. A envolvente (ou entorno como alguém que eu conheço diria) era mais rural. A estrada, mais uma, está em obras e por isso o trânsito tornou-se bastante lento.

O restante caminho é semelhante ao caminho que descrevi para CaboLedo. Alguns embondeiros, solo árido, por vezes cinza, outras avermelhado… Mais do mesmo…

A praia… Bom a praia é um local tranquilo e muito agradável. Existe um complexo turístico muito bem cuidado e fomos para essa praia. O aspecto é este…


Fonte: http://www.angolabelazebelo.com/

28 de Setembro – Porque é que será que não tinha internet?

Bom…

Depois de mais um fim-de-semana em que tive que utilizar a sala, comum, para conseguir aceder à internet não desisti enquanto o meu colega não me garantiu que vinha cá a casa ver o que é que se estava a passar…

Ao fim da tarde veio cá e imagine-se lá o motivo pelo qual o router que estava à porta do quarto tinha sinal mas não dava acesso à internet.

A equipa, que falei no dia 24, colocou o cabo que vai desde a zona em que entra a internet em até ao router que está à porta do meu quarto mas, vá-se lá saber porque, deixou a ponta do cabo desligado.. Ou seja, o que se apanhava no quarto era o sinal que o router estava activo (porque estava ligado à corrente e estava pronto a funcionar) mas ele não tinha ligação à internet…

Incrível não é? Pois… Mais incrível ainda quando, depois de concluída a instalação, perguntei ao meu colega para que era a ponta do cabo que não estava ligado a lado nenhum e, confirmado com o chefe de equipa que cá veio, ele lhe disse que é para se depois for necessário outro cabo… Que tinham deixado tudo montado e estava pronto a funcionar…

Palavras para quê?

Há coisa que, por muito que se abordem, não se conseguem compreender…

24 de Setembro – Finalmente net em casa… ou não…

De manhã, ao sair de casa, tive um agradável surpresa…

Cá estava uma equipa de pessoas, literalmente porque eram 4, para concluir a instalação da internet na zona perto do meu quarto.

Depois de muitos dias sem net e com grandes dificuldades na ligação, situação que só se resolvia quando ia para a sala da casa e, inexplicavelmente, ligava o cabo ao computador (quando havia a 3 metros de mim um router wireless), aí estava a resolução do problema.

Ou não…

Hoje é quinta-feira, e como tem vindo a ser hábito, dia de futebol. Depois de muito ter chateado o colega que gere a parte da electrotecnia e que, há falta de alguém com essas funções, dá também uma perninha em tudo o que está relacionado com a informática finalmente fui compreendido…

Ele e outro colega não tinham água em casa e, portanto, perguntaram se depois do futebol poderiam vir tomas banho num dos quartos que está vazio.

Obviamente que não haveria nenhum problema por isso e, uma vez que imediatamente antes do futebol tinha tentado e não tinha acesso através do Router que tinha sido instalado, aproveitei para que o Licínio tentasse perceber o que se passava…

Era simples… Mais uma vez o modem está a cerca de 2 metros da entrada do quarto e internet está abaixo do Mbps. Isso faz com que não se consiga utilizar todo o software necessário para manter uma conversação normal com alguém que está longe (como família, namorada e amigos).

Mas, apesar de achar que vou passar um fim-de-semana sem internet, creio que foi positivo porque para a semana terei a ligação directa para o meu quarto e aí sim, poderei falar com quem quero à vontade.

Pois… Já passou um mês e quase uma semana e ainda não consigo ter internet em condições… É por isso que digo que é uma realidade diferente e, por vezes, difícil de compreender…

20 de Setembro – O balanço do primeiro mês

Pois é… Já se passou um mês…

Precisamente por isso aqui fica o meu balanço destes “primeiros 30 dias”.
Agora percebo as “dicas” do Ludgero… O Rádio e a lanterna (a pilhas)…

Frequentemente o fornecimento de energia eléctrica é interrompido e quem não tem geradores, em todas essas circunstâncias, fica privado desse, que agora considero, bem essencial…

Esta experiência, para além de muitas outras coisas, também tem essa mais-valia. Está a servir para perceber que muitas das coisas que, por exemplo em Portugal, damos como adquiridas noutros locais pura e simplesmente não existem… É óbvio que eu tinha noção que essa era a realidade (por isso existem países desenvolvidos, em vias de desenvolvimento e os do 3º mundo) mas associava sempre essa realidade a países com economias inexistentes… Pensei que num país onde existe tanto investimento já se tivesse investido o suficiente nas “infra-estruturas básicas” para a população… Desprezei o facto do conceito de “investimento” e “economia” aqui, assumirem contextos distintos do meu padrão… Mais uma vez o meu pensamento desenquadrado da realidade Africana…

Quanto ao resto nada de excessivamente anormal… O enquadramento na equipa está a dar-se duma forma pacífica e positiva, a casa onde estou alojado (tirando o facto do meu quarto ser num anexo) está arranjada e equipada como se de uma casa portuguesa se tratasse, no escritório existe tudo aquilo que existe num escritório em Portugal (apesar de antes de chegar pensar que teríamos, por exemplo, apenas uma impressora para 15 pessoas) e toda a restante vida não é assim tão diferente de qualquer vida em Portugal.

Obviamente que existem alguns condicionamentos a que não estamos habituados em Portugal como a quase inexistência de eventos culturais, como o sentimento de insegurança que as pessoas sentem (apesar de nunca ter presenciado nenhuma situação que me deixasse receoso), como o tempo que se perde em viagens na cidade (quem o tem que fazer obviamente) etc etc etc. Mas, como em quase tudo na vida, existe também o outro prato da balança. A troca cultural. Aquilo que podemos beber da cultura local e guardar para a nossa vida.

Por exemplo… As pessoas vivem com algumas dificuldades financeiras mas não é por isso que deixam de ser simpáticas nem deixam de aproveitar o pouco que a vida lhes pode proporcionar. Um pouco ao estilo brasileiro, que eu e a Patrícia sentimos em Arraia D’Ajuda, em que a vida é vivida dia-a-dia e que contrapõe com todos os objectivos que traçamos, as ambições que temos, o valor que damos a tantas coisas que, bem vistas as coisas, se calhar, não passam de coisas superficiais…

Outro exemplo… Os meninos poucos brinquedos têm mas não é por isso que deixam de brincar… Andam na rua, correm, brincam, divertem-se e divertem-se com o pouco que têm… São felizes à maneira deles… Sinceramente, entre este extremo e o da nossa sociedade não sei qual é o mais correcto… Claro que acho que esta realidade representa um extremo sub-aproveitado e não acho que as crianças portuguesas devessem viver esta realidade mas, por outro lado, os jovens fechados em casa por causa dos computadores e dos jogos de vídeo… É certo que muitas dessas coisas potenciam algumas capacidades deles mas ao mesmo tempo é, certamente, muito limitador do nível de vivência… Na minha opinião torna-se numa forma de vida muito individualista e virtual que lhe confere alguma superficialidade.

É só uma opinião…

Mas voltando ao balanço do primeiro mês em Angola…

Só existe um factor que faz com que a avaliação não seja totalmente positiva… A ausência da Patrícia… Começo a achar que, quando estivermos aqui juntos, a experiência se poderá tornar efectivamente positiva porque poderemos conhecer melhor as zonas mais rurais deste país… Poderemos visitar todos os locais de referência, com o tempo vou-me apercebendo que afinal também os existem por cá, que representam toda a grandiosidade deste continente. Provavelmente são esses locais que dão a tal mística que tanto ouvimos os Portugueses falar… Não sei veremos… Fica porém a certeza que se cá estivéssemos juntos o primeiro mês teria sido totalmente positivo…

Ao fim deste primeiro mês percebo também a relevância de algo a que, em Portugal, pouco interesse me provocava.

A televisão… É algo difícil de explicar mas o simples facto de chegar a casa, ligar a televisão, ouvir falar português e ver caras conhecidas, ouvir notícias relacionadas com a realidade que estamos habituados é algo que tenho alguma dificuldade em explicar…

É uma sensação de aconchego… Dá-nos uma sensação de proximidade e de actualidade… Por outro lado provoca o normal atraso na integração porque acabamos por sentir que somos estrangeiros e que, estando em casa, estamos fora deste país… Não vivemos o nosso contexto mas de qualquer forma é um sentimento muito engraçado.

Bom… Tinha como objectivo começar a escrever textos mais curtos para que se tornassem mais atractivos e cativantes… Para já objectivo não cumprido…

No fundo um resumo… Balanço do primeiro mês e expectativas para os próximos?

Existem uma série de “pormenores”, que daqui a algum tempo se podem revelar “pormaiores”, mas, à data de hoje, o balanço deste primeiro mês é claramente mais positivo do que pensava que poderia ser..

Espero que assim continue e que em breve esteja “completo” nesta terra avermelhada.

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