Quando me começo a adaptar à vivência da cidade surgem sempre coisas novas…
Neste momento faço todo o percurso casa-trabalho, a pé, sem grandes receios. Já percebi que não estou permanentemente a passar por potenciais ladrões e, portanto, tudo começa a ser mais fácil…
Mas, por vezes, existem pequenos pormenores que me relembram, de imediato, tudo o que senti nos primeiros dias…
Hoje, após o almoço, regressava com um colega ao escritório. Sobre a passadeira vi, ainda ao longe, uma carrinha branca. Um típico “forgão” americano que me chamou a atenção porque, para além de ser diferente, metade estava estacionado sobre o passeio…
Nada de anormal. Provavelmente alguém quis ir ao banco, porque no prédio do gaveto existe uma agência bancária, e encostou ali a carrinha por um bocadinho. Quando chegámos à zona da passadeira, vimos se viria algum carro (porque aqui nenhum condutor respeita o outro condutor, quanto mais um peão) e, a meio da passadeira olho em frente. Fico quase apavorado quando percebo o que está à minha frente. Dois homens pequenos e magros, cada um com a sua metralhadora (diria que é um modelo bastante antigo porque parte era de ferro preto e outra parte era de madeira), encostados à parede. Tentei pensar no que se estaria a passar e, porque estávamos à frente de um banco, pensei que se tratava de um assalto. Nesse momento relembro-me que a carrinha estava mal estacionada e percebo o motivo quando vejo um homem na carrinha a passar algo a outro que estava cá fora…
Corro o risco de não conseguir transmitir o que vi mas o que ele estava a passar tinha o aspecto daquelas embalagem de papel higiénico que se vendem nas Cash-and-Carry, ou seja, 36 rolos dispostos numa forma rectangular e envolvidos por plástico… Mas não era papel higiénico… Eram notas… Uma quantidade enorme de notas… Só nesse preciso momento percebi o que se estava a passar e consegui organizar ideias.
Aquela “carrinha branca” era a carrinha que designamos de “transporte de valores”, os senhores com as metralhadoras eram os senhores que em Portugal não saem da carrinha para, caso sejam assaltados, o prejuízo ser reduzido à quantia que está fora do carro, e os outros dois senhores que carregavam os “pacotes” de notas são os senhores que, em Portugal, saem do carro com um saco na mão e entram na agência bancária.
Desengane-se quem pensa que aquela era uma operação única e que, pelo facto de ser uma grande quantidade de dinheiro, a situação foi especial.
Desenganem-se porque i)a moeda é fraca e, portanto, rapidamente se fala de muitos milhares de KZ e ii) aquele era o procedimento habitual para prevenirem assaltos.
E eu era uma pessoa que ia a passar naquele preciso momento e que se espantou com aquele cenário todo… Ah, e devo ter sido o único a ficar espantado, porque para todos os transeuntes era uma situação normal…
De facto, quando acho que já percebo qual é a realidade e que tipo de coisas são normais por estas bandas, eis mais uma situação que me relembra que aqui se vive duma forma diferente.
Nem melhor, nem pior… Apenas diferente.